 

De Repente... Pai!  Quando Josephine tinha problemas, sempre corria para Alexander Rafferty. Ele era bonito, inteligente, charmoso e sexy... Em resumo, um grande partido. Mas, para Josephine, Alexander era simplesmente seu melhor amigo. Chorando em seu ombro aps o rompimento de 1 romance, Josephine surpreendeu-se ao descobrir que esperava dele um pouco mais do que simples palavras de amizade ou conforto. De repente, sentiu  vontade de fazer amor com Alexander... que alis parecia desejar o mesmo! Mas aquela noite especial prometia consequncias totalmente inesperadas. Josephine ficou grvida e no sabia ao certo como Alexander reagiria a esse fato! Ele, porm, no teve dvidas: disse que assumiria o beb. Mas como Alexander pretendia fazer isso? Era o que Josephine gostaria de saber.

Ttulo: Um beb, Um amor   Autor: Kim Lawrence
Ttulo original: Accidental Bride  Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1999 Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina Reviso: Bruna Estado da Obra: Corrigida

CAPTULO I

Alexander Rafferty fitou longamente a mulher adormecida a seu lado. Repetindo um gesto que sempre fazia, quando preocupado ou triste, passou a mo pelos cabelos negros e lisos.
Por um momento, deteve-se a observar os longos clios castanhos da mulher... Clios que ocultavam olhos verdes e luminosos, como jade.
"Quando ela despertasse...", Alexander pensou, com suspiro. E no teve coragem de concluir a frase, mesmo mentalmente.
De sbito a mulher se mexeu, mudando de posio. Seu corpo, de compleio delicada, desenhava-se sob os lenis macios, suavemente perfumados.
Ela estava, agora, deitada de lado. E Alexander lembrou-se dos seios pequenos e firmes, que tocara na noite anterior... Seios que haviam vibrado sob suas mos, causando-lhe uma profunda emoo.
Mais uma vez, ele interrompeu aquele fluxo de pensamentos.
Mesmo assim, no pde deixar de admirar a beleza de uma mecha de cabelos ruivos e levemente ondulados, que caam sobre o rosto dela. Suavemente, Alexander afastou-a.
"Nada de pnico", ordenou-se. O que mais necessitava, no momento, era de tranquilidade e sensatez.
O problema era: como manter-se calmo, diante da viso de Josephine Smith adormecida como um anjo?
O que aconteceria, quando ela acordasse?, perguntou-se. Certamente se sentiria to atnita quanto ele...
Com gestos vagarosos, Alexander afastou as cobertas e sentou-se na cama. Talvez fosse melhor se vestir e ento esperar que Josephine acordasse...
Tarde demais! Naquele exato instante, Josephine Smith virou-se para ele e abriu os olhos.
 Ol  murmurou, docemente.
Por alguns instantes, o tempo pareceu suspenso.
Alexander sorriu, tmido, perguntando-se o que deveria fazer: trazer Josephine, de um s golpe, para a realidade? Ou esperar que ela tomasse conscincia do que havia acontecido?
Alexander nem teve tempo de pensar a respeito. Pois, no instante seguinte, os olhos verdes de Josephine arregalaram-se numa expresso de espanto.
 Alexander!  ela exclamou.  O que voc est fazendo aqui?
Antes que ele respondesse, Josephine balbuciou:
 Ns... no...  E ento levou a mo  testa.  Oh, Deus, ns fizemos amor, sim!
Aquele era o tipo de situao para o qual um lomem nunca estaria totalmente preparado, Alexander pensou, procurando algo para dizer. Algo jue tranquilizasse a mulher a seu lado.
Mas como faz-la sentir-se assim diante do que ora, realmente, uma perfeita insensatez?
A expresso de Josephine j no era apenas de espanto, mas de total perplexidade.
Com gestos trmulos, ela puxou os lenis para cima, cobrindo-se at o queixo.
 Por favor, no me olhe desse jeito  ele pediu, constrangido.  Tente encarar o que houve de maneira...  Interrompeu-se, sem saber como continuar. E denunciando toda a inquietao que o dominava, finalizou:  Afinal, no foi to ruim assim.
 O qu?  ela indagou, com voz trmula.
 Se voc passar a me odiar, depois disso, eu compreenderei. Afinal, bem que mereo...
 No seja tolo, Alexander  ela aparteou, impaciente.  Eu no odeio voc.
"At mesmo os homens mais inteligentes e brilhantes podem se tornar obtusos, em situaes de impasse", Josephine pensou, fechando os olhos por um instante.
Ser que Alexander no compreendia que, a partir de agora, tudo mudaria entre ambos? Que a amizade que os unia como irmos, desde a infncia, nunca mais seria a mesma?
E de quem era a culpa, seno dela prpria e tambm de Alexander? Afinal, tinham jogado tudo para o alto, num momento de insensatez. E o resultado ali estava...
 Quer dizer ento que voc no est furiosa comigo?  A voz de Alexander tinha um trao de profundo alvio.  Fico feliz por isso. Mas no poderia censur-la se, a partir de hoje, voc nunca mais quisesse me ver. Afinal, aproveitei-me de voc, num momento de fragilidade.
 Seria muito cmodo, para mim, encarar a situao sob esse ngulo  ela declarou aps um longo momento.  Mas detesto mentir... Sobretudo para mim mesma.
 Como assim, Josephine?
 Bem, que eu me lembre, voc no me obrigou a nada. Se algo aconteceu entre ns, foi por mtuo consentimento. Portanto, no tenho motivos para acus-lo.
 Mesmo assim, estou envergonhado pelo que fiz. Eu no deveria...
 Voc por acaso se d conta de como essa afirmao  absurda, Alexander Rafferty?  ela apartou novamente.  Voc fala como um personagem de um melodrama da era Vitoriana e, no entanto, est aqui, a meu lado, nu como um heri de romances modernos.  E Josephine preferiu no pensar no quanto havia admirado a nudez daquele homem, na noite anterior.
 Ora, tente compreender minha posio, Josephine Smith!  ele exclamou, exasperado.  Voc ainda no percebeu que estou tentando lhe pedir desculpas? Tudo o que houve entre ns foi...
 Terrvel?  ela indagou, engolindo em seco.
 Voc sabe que no  ele respondeu, com uma expresso de desalento.  Ao contrrio, foi muito bonito e...
 Intenso  Josephine completou, com um suspiro.
 Exatamente.
O silncio caiu entre ambos, como uma cortina pesada e densa.
Josephine sentiu os olhos marejados e, no instante seguinte, uma lgrima furtiva escorreu-lhe pelo rosto. Enxugando-a com um gesto nervoso, ela voltou as costas a Alexander... Mas no a tempo de evitar que ele percebesse sua tristeza.
 Voc est chorando?  a pergunta soava como uma constatao.
 Lgico que no!  Josephine respondeu, com veemncia. No queria que Alexander a considerasse tola, alm de frgil e vulnervel.
A verdade era que estava confusa e bastante assustada, com o que havia acontecido. Sempre discutia quando ouvia algum dizer que a relao platnica entre um homem e uma mulher era impossvel. Sempre acreditara que pessoas de sexo oposto poderiam ter uma relao profunda, de pura amizade, sem necessariamente passar pela sensualidade.
Alexander era seu melhor amigo. O fato de ele ter nascido homem nunca a incomodara... ao contrrio, parecia-lhe indiferente. Ou ao menos parecera-lhe, at a noite anterior.
O destino, em seus misteriosos caminhos, tinha conspirado para aproxim-los, desde muito cedo.
Os dois haviam nascido, com apenas um ano de diferena, na mesma rua, na pequena vila de East Anglia, situada numa zona rural, nos arredores de Londres.
Sua me e a de Alexander tinham estudado juntas durante anos, tornando-se amigas inseparveis. E, para completar, enquanto seu pai era o nico veterinrio da cidade, o pai de Alexander dedicava-se a criar cavalos de raa.
Por tudo isso, e tambm por conta de muitas afinidades, ela havia se tornado a melhor amiga de Alexander e vice-versa.
O fato de ambos partirem da pequena cidade provinciana em direo a Londres, onde seguiram carreiras diferentes, em nada abalara aquela profunda amizade. Servira apenas para aproxim-los ainda mais.
Josephine sentiu o brao de Alexander sobre o ombro, numa clara demonstrao de carinho e solidariedade. Ele sempre fazia isso, quando queria apoi-la, num momento difcil.
Agora, no entanto, aquele contato j no parecia to reconfortante como antes.
Estremecendo, Josephine desvencilhou-se, como se o toque a queimasse. Novas lgrimas escorreram-lhe pelo rosto e, dessa vez, ela nem se importou em enxug-las.
 Tudo comeou com um abrao  disse Alexander, com um suspiro. De sbito, sua voz grave assumiu um tom de fria.  Voc estava to magoada com aquele cretino! E eu s queria consol-la. Ento, o que fiz? Abracei-a, Josephine, para tentar minorar seu sofrimento. Era apenas isso que eu pretendia, juro!
De fato, Alexander conseguira confort-la, Josephine recordou-se, voltando-se para fit-lo, com os olhos verdes marejados.
 De repente, no sei o que deu em mim...  ele continuou, com uma expresso mortificada.  Acho que perdi a cabea e...
 Voc no foi o nico responsvel pelo que houve. Se algum perdeu o controle, esse algum fui eu  ela declarou, corajosamente.  Lembro-me de um momento em que voc tentou parar... Mas creio que j era tarde demais.
 Voc no...
 Oh, sim, Alexander  Josephine o interrompeu.  J lhe pedi e repito: no tente excluir minha responsabilidade sobre o que aconteceu. Isto seria, no mnimo, injusto.
 Tudo bem  ele concordou, com a voz carregada de remorso.  Mas ambos sabemos que voc j estava descontrolada, desde antes, graas quele idiota do seu namorado.
 Ex-namorado  Josephine o corrigiu.
 Exato. Voc estava arrasada. Portanto, como poderia manter o bom senso? Eu sim, deveria ter...  Interrompendo-se, exclamou:  Droga! Um homem que se preza no deve se aproveitar de uma mulher carente e magoada.
 Est certo  Josephine concordou, com veemente ironia.  Voc  um crpula, Alexander Rafferty. Agiu de maneira vergonhosa, como um perfeito mau-carter.  Aps uma pausa, ela indagou, com um misto de exasperao e amargura:  Est satisfeito, agora? Quer que eu o despreze, que o acuse de ter se aproveitado de mim? Quer que eu declare que nossa amizade acabou, por isso?
Ele fitou-a, a princpio desconcertado. Depois, seu rosto de traos belos e msculos descontraiu-se num sorriso encantador:
Tem razo, srta. Smith. Estou agindo como um idiota, no ?
 Ainda bem que reconhece, sr. Rafferty  ela respondeu, retribuindo o sorriso.
s vezes, por pura brincadeira, ambos costumavam tratar-se daquela maneira formal. Depois, desatavam a rir.
Tambm agora estavam rindo, mas em seus olhos ainda pairava um misto de receio e dvida. Afinal, tinham feito amor...
 Espero que isso no afete nossa amizade  disse Josephine, invadida novamente pela tristeza de saber que a relao de ambos nunca mais seria como antes.  Pois eu a prezo mais do que tudo neste mundo.
 Eu tambm  Alexander afirmou, abraando-a.
Dessa vez, ela no fugiu ao contato. Mas tampouco sentiu-se descontrada e  vontade, como sempre ocorria, quando recebia um abrao de seu melhor amigo.
 Vamos esquecer que isso aconteceu, est bem?  props, embora no fundo duvidasse que fosse possvel. Como riscar, da memria e dos sentidos, um fato to importante?
Aquela era uma pergunta para a qual no havia resposta... Ao menos por enquanto.
Se as circunstncias houvessem sido diferentes, Josephine pensava, trs meses depois... Talvez tivesse conseguido relegar, ao esquecimento, aquela noite de amor. Entretanto, o destino mais uma vez jogara suas cartas, tornando simplesmente impossvel ignorar o que acontecera.
 Fez um bom passeio, querida?  perguntou Bill Smith, que a aguardava junto ao porto da antiga casa da famlia, situada numa pacata rua de East Anglia.
 Sim, papai, obrigada  Josephine respondeu, afastando da testa uma mecha ruiva. Tinha feito uma longa caminhada pela cidadezinha. O tpido sol da manh de vero dera-lhe um tom rosado s faces.  A que horas iremos  casa dos Rafferty?
 Por volta de onze e meia. Mas se voc estiver muito cansada...
 De modo algum. Sinto-me perfeitamente bem.
 Mesmo assim, aconselho-a a repousar um pouco, antes de sairmos.
Josephine sorriu:
 Desde que cheguei, ontem  tarde, voc no tem me recomendado outra coisa, seno descansar.
 A vida em Londres  muito agitada, filha.  bom que voc aproveite este fim de semana, aqui em East Anglia, para relaxar.
 Se eu relaxar mais, papai, acabarei me desintegrando  Josephine gracejou.  E agora, com licena. Preciso tomar um banho e me aprontar.  Olhando o pai de cima a baixo, comentou:  Puxa, como voc est elegante. Terei de vestir algo bem chique, para no envergonh-lo.
 Elegante!  Bill Smith riu.  Voc tem cada uma, filha!
 E verdade, papai. Voc est com tima aparncia!
De fato, aos cinquenta e cinco anos, Bill Smith era um homem belo e altivo. Os cabelos grisalhos, j um tanto ralos, emolduravam-lhe o rosto de traos firmes.
Josephine herdara, dele, os olhos verdes e o nariz afilado. O queixo, a testa larga e as mas salientes do rosto eram herana da me, j falecida.
Acenando para o pai, Josephine transps o pequeno caminho de pedras que conduzia  casa, uma construo austera, antiga mas muito bem conservada. Colunas de tijolos e paredes cor de marfim, amplas janelas e o telhado de ardsia que caracterizava a maioria das construes de East Anglia.
Ao entrar na sala ampla e bem iluminada pelos raios de sol que se insinuavam atravs das janelas abertas, Josephine deparou com a irm caula, que sorriu ao v-la:
 Bom dia, maninha.
 Bom dia, Jessie.
 J estou pronta para o almoo na casa dos Rafferty  a garota declarou, descrevendo um giro gracioso.  Que tal?
Josephine observou-a dos ps  cabea, com um sorriso cheio de ternura. Aos dezesseis anos, Jessie era uma garota bonita, alegre e descontrada. Tal como toda adolescente, estava na poca de cometer rebeldias e contestar valores. Talvez por isso usasse uma minissaia jeans, curtssima, que deixava-lhe  mostra as pernas esguias e bem torneadas. Uma blusa colante, branca, e tnis da mesma cor, completavam o sumrio figurino.
 E ento?  Jessie perguntou, piscando-lhe um olho.  Estou bonita?
 Linda  Josephine respondeu, divertida.  S no sei se papai dir o mesmo  acrescentou, referindo-se, naturalmente,  minissaia.
 Oh, ele j desistiu de me fazer usar roupas compridas.
 Acontece que sua saia no  exatamente curta, mas sim... minscula.
Assumindo uma expresso dramtica, a garota exclamou:
 Oh, no me diga que voc  antiquada como papai?! Por acaso acha que...
 Que voc deve usar as roupas que bem entender  Josephine interrompeu o que seria um longo monlogo.  Se est se sentindo bem assim, no tenho por que censur-la.
 Pois deveria  Bill Smith interveio, entrando na sala. Qualquer dia essa menina vai sair por a nua.
 Papai! Jessie protestou, rindo. Voltando-se para Josephine, comentou:  Viu s como ele  exagerado?
 Exagerada  voc, menina  Bill Smith retrucou. Pedindo a aprovao de Josephine, acrescentou:  Se um dia as revistas de moda decretarem que o chique  andar como Ado e Eva, ela no hesitar em adotar o estilo.
 Ao menos assim vou parar de pedir dinheiro para comprar roupas  Jessie respondeu, com ar maroto.
 Ora, parem com isso!  Josephine pediu, sorrindo.  Se pensam que vou bancar o juiz, nas discusses de vocs, esto redondamente enganados.
 E por falar em redondamente, voc j est bem gordinha, mana  disse Jessie.  No vejo a hora dessa barriga comear a aparecer.
 Com trs meses, quase no se percebe.
 Que pena.
 Tudo tem seu tempo, maninha.
 Voc vai ficar linda, barrigudinha...
 Essa menina s fala bobagens  Bill Smith comentou, rindo.
 Ela ser a grvida mais linda da Inglaterra  Jessie declarou, com um largo sorriso.
 E voc ser a tia mais cabea-de-vento que j conheci  Bill Smith afirmou, no mesmo tom.
 E voc, o av mais orgulhoso do planeta.
Rindo, Josephine caminhou em direo ao corredor que conduzia ao quarto que sempre fora seu, desde criana. Ocupava-o, quando vinha visitar a famlia. O velho Bill Smith fazia questo que ela o encontrasse muito limpo e arejado,  sua espera...
"Assim, parece que voc partiu ontem...", ele costumava dizer.
 Com licena, pessoal  disse Josephine, afastando-se.  Vou me aprontar.
 Fique  vontade, querida. E no se apresse.
A sra. Maggie Rafferty recebeu os Smith com o carinho de sempre. Mas demorou-se a contemplar Josephine, segurando-a pelos ombros, enquanto a fitava com intenso carinho.
 Oh   deixe-me olhar para voc, querida. Est linda, como sempre.
 Bondade sua, tia Maggie  disse Josephine, fitando-a no fundo dos olhos, que eram azuis como os de Alexander.
 E ento, Maggie?  Bill Smith provocou-a, num tom divertido.  No vai nos deixar entrar?
 Oh, espere um minuto, Bill  a velha senhora retrucou, sorrindo.  No se esquea de que esta menina  como uma filha, para mim.
 E eu?  Jessie interveio, no mesmo tom.  S porque me v quase todos os dias, no precisa me ignorar.
 Voc tambm est linda, criana  tia Maggie afirmou. Ento, voltou a observar Josephine.  Puxa, seus olhos parecem ter adquirido uma luminosidade diferente... Sua me, que Deus a tenha, ficaria feliz em v-la assim, to bonita.
 De algum modo, ela sempre nos v  Bill Smith sentenciou, num tom suave.  Acho que, mesmo l em cima, continua cuidando de ns todos.
  verdade  Josephine concordou, tomada por uma onda de emoo. Sabia muito bem a que se devia a luminosidade de seus olhos. Mas tia Maggie ainda no estava a par do fato... E nem tio Patrick, que agora aproximava-se pelo hall, para receb-la.
 Minha querida, que bom t-la conosco! Seu pai me avisou que voc viria, mas eu no acreditei. Afinal, voc e meu filho quase nunca tm tempo de nos visitar.
 A vida por l  muito agitada, tio Patrick  disse Josephine, beijando-o em ambas as faces.  Se no venho mais vezes, no  por falta de saudade...
 Eu sei, meu bem.
 Pronto!  Jessie protestou, fingindo-se zangada.
 Hoje, todas as homenagens sero para Josephine.
 Oh, para voc tambm, minha menina  disse Patrick Rafferty, beijando a garota. Em seguida cumprimentou Bill Smith, com um caloroso abrao.
 Vamos entrando, pessoal. O dia de hoje ser memorvel, pois teremos toda a famlia reunida.
Josephine entrou, acompanhada pelo pai e pela irm. Conhecia aquela casa palmo a palmo e considerava-a um pouco sua. Afinal, crescera frequentando o lar dos Rafferty.
 Que tal um suco de frutas?  Maggie Rafferty ofereceu, enquanto todos acomodavam-se na sala.
 Acabei de preparar.
  uma tima idia  Bill Smith aprovou.
 Ento, vou buscar.
 Irei com voc, tia Maggie  Jessie se disps. Sentando-se num antigo sof, que conhecia desde criana, Josephine deixou-se invadir pelas recordaes. Vagamente, ouvia o pai conversando com Patrick Rafferty. Da cozinha, vinha a voz alegre de Jessie, ponteada por risos de Maggie Rafferty, que logo retornou, trazendo uma bandeja com uma jarra e vrios copos. Delicadamente, serviu o suco e ofereceu o primeiro copo a Josephine:
 Para minha princesinha...  disse, carinhosamente.
Josephine estava agradecendo, quando Jessie irrompeu na sala, com uma expresso radiante:
 Josephine, adivinhe s quem est aqui!  E sem esperar pela resposta, anunciou:  Alexander Rafferty! Por que voc no me contou que ele viria, tambm?
Josephine quase deixou cair o copo de suco, enquanto lutava para vencer uma sensao de vertigem. Empalidecendo, conseguiu balbuciar:
 Eu... no sabia.
Mas ningum deu-se conta de sua inquietao. Bill Smith levantou-se para cumprimentar Alexander, que chegou  sala logo depois de Jessie.
 Como vai, filho?  indagou, abraando-o com efuso.
 Vamos indo, tio Bill  ele respondeu, no mesmo tom.
 Pensei que voc estivesse no Oriente Mdio, arriscando o pescoo em meio quela luta insana entre rabes e judeus  disse Jessie, que jamais escondia sua profunda admirao por Alexander. Venerava-o como a um irmo mais velho, um heri a quem no se cansava de render homenagens.
 Felizmente, meu filho agora se dedica a escrever livros e a apoiar movimentos ecolgicos, ou humanistas  disse Maggie Rafferty, fitando-o com orgulho.
 Para nossa tranquilidade, ele desistiu de ser correspondente de guerra  Patrick Rafferty comentou, no mesmo tom.
 Quer dizer que voc afrouxou, Alexander?  Jessie indagou, decepcionada.
 Afrouxei nada, menina  ele respondeu, divertido, acariciando os cabelos ruivos e curtos da garota.  Alis, creio que agora encontrei a melhor maneira de lutar pelo que acredito.
 E o que voc faz? Denuncia desmatamentos e outros crimes absurdos contra nosso querido planeta?  Jessie perguntou.
 E mais ou menos isso.
 Pois eu o preferia como um heri destemido, que vivia se aventurando nas zonas de guerra, para conseguir furos de reportagem.
 Jessie!  Bill Smith repreendeu a filha.  No diga bobagens. Voc no imagina o perigo que Alexander corria, fazendo esse trabalho.
 Pois no corro perigo menor, tio Bill, quando me meto nas matas brasileiras ou africanas, para escrever sobre a terrvel devastao que esto cometendo, por l. Isso sem contar minha luta contra os empresrios inescrupulosos, que jogam detritos qumicos em rios e...
 Ah, bom!  Jessie o interrompeu, entre alegre e aliviada.  Ento voc continuar sendo meu heri!
Todos riram do comentrio da garota. Distrados, no percebiam a palidez excessiva de Josephine, que fitava Alexander com uma expresso atnita.
No imaginara encontr-lo ali. Estava acostumada  vida itinerante que Alexander levava, viajando por lugares longnquos, como um antigo pioneiro.
Quantas vezes passara meses sem v-lo, recebendo cartas e postais de lugares exticos, falando-lhe vez ou outra por telefone!
Alis, fora isso que acontecera, nos ltimos trs meses. Recebera vrios telefonemas de Alexander, tratara-o com o carinho de sempre, ficara feliz por saber que ele enfim encontrara seu ideal, lutando por causas admirveis como a preservao do meio ambiente e a justia social, num mundo onde os interesses econmicos subjugavam os valores mais preciosos da humanidade.
Como que por um acordo ttico, nem ela, nem Alexander, mencionavam a noite em que tinham feito amor. Era como se esta houvesse realmente sido relegada ao esquecimento... Como se a amizade que sempre os unira permanecesse intacta.
Aquela era a primeira vez que Josephine o via, desde que havia se entregue s suas carcias, movida por uma fora poderosa e irresistvel.
Ela engoliu em seco, sentindo o corao pulsar to forte, que parecia saltar-lhe no peito. O ar lhe faltava, o sangue corria-lhe como fogo nas veias.
Alexander no parecia menos surpreso. Mas recuperou-se rpido e, aproximando-se, beijou-a em ambas as faces e sorriu:
 Como vai, Josephine? Que bom encontr-la aqui. 
Ela queria dizer que se sentia da mesma forma, mas no conseguiu. Apenas esboou um sorriso e, depois de sorver um gole de suco, depositou o copo sobre a mesinha de centro.
 Voc no acha que minha irm est mais gordinha?  disse Jessie.  Repare bem, Alexander, e veja se no tenho razo.
Josephine sentiu vontade de desaparecer dali, como que por um passe de mgica.
No tinha contado a ningum que Alexander era o pai da criana. Alis, at o momento, s Bill Smith e Jessie sabiam a respeito de sua gravidez. E quando ambos lhe perguntaram quem era o pai da criana, Josephine simplesmente respondera que revelaria seu nome no momento em que julgasse adequado. Jessie fizera muitas perguntas, tentando arrancar-lhe o segredo. Mas Bill Smith respeitara seu silncio, embora no ocultasse a curiosidade... Nem a tristeza, prpria de todo pai que de repente fosse informado, pela filha ainda solteira, de que ia ser av.
Naquele domingo, Josephine pretendia revelar aos Rafferty sua gravidez, j que os considerava como membros da famlia. Mas no contara, em absoluto, com a presena de Alexander. Isso mudava tudo.
 No acha, Alexander?  A voz de Jessie interrompeu-lhe os pensamentos.
Longe de imaginar a verdade, ele observou-a com ateno e ento sorriu:
 De fato, Josephine engordou um pouquinho. Mas est linda, como sempre.
 Repare na... "luminosidade dos seus olhos", como disse tia Maggie. Voc no v nada de diferente?
 Jessie, no se intrometa em assuntos que no lhe dizem respeito...  Bill Smith censurou a filha.
 Ora, papai, a prpria Josephine falou que ia contar ao tio Patrick e  tia Maggie...
 Ia contar o qu?  Maggie Rafferty indagou, curiosa. Era uma senhora robusta, de rosto simptico e alegre. Em seus olhos, azuis como os do filho, habitava a sabedoria adquirida ao longo de seus sessenta e quatro anos de vida. E talvez por isso, depois de um olhar demorado em direo a Josephine, ela murmurou:  Gordinha... E com os olhos luminosos... Minha querida, voc est...
 Grvida!  Jessie completou, esfuziante, sem supor as consequncias daquela revelao.
 Grvida?!  Patrick Rafferty e Alexander repetiram, ao mesmo tempo.
Um momento de silncio caiu no recinto. E Jessie quebrou-o com uma indagao inocente:
 Puxa, maninha, voc no contou nem mesmo a Alexander? Estranho... Ele no  seu melhor amigo?
Josephine no pde responder. Seus olhos estavam fixos nos de Alexander, que pareciam desnud-la, adivinhando-lhe os mais ntimos pensamentos, desvendando o segredo que ela guardava h trs meses.
 Josephine...  Ele estava perplexo.  Voc... Quero dizer... Ns... Esta criana...  E no completou a frase.
 No quero falar sobre isso agora  ela afirmou, num fio de voz.

 Responda  ele exigiu, com uma expresso que era a um s tempo desesperada e cruel.
 Por favor, Alexander...  ela pediu, num tom de splica.
 Sim ou no, Josephine?  Ele mantinha-se irredutvel.
O silncio era denso e pesado, agora. A tenso que corria entre ambos parecia quase palpvel, no ar.
 Filho...  Patrick Rafferty interveio, aborrecido.  Isso so modos de falar com nossa doce Josephine? O que foi que deu em voc, para faz-lo intrometer-se num assunto que em absoluto no lhe diz respeito?
 Ser que no, papai?  Alexander argumentou, sem desviar os olhos de Josephine.
 Mas  lgico que no, filho! Se Josephine est grvida, tudo o que podemos fazer  apoi-la... E no censur-la, como voc est fazendo.
 No a estou censurando pela gravidez, papai, e sim por no ter me contado antes.

 Ora, isso no  motivo para aborrecimentos. Aposto que Josephine ia lhe dizer, mais cedo ou mais tarde. Sei que vocs so amigos e...
 Fale de uma vez  Alexander interrompeu o pai, fuzilando Josephine com os olhos azuis.  Esta criana...  minha?
Sem outra alternativa, ela preparou-se para o momento da verdade.
 E minha, Josephine?
 Sim, Alexander.

CAPTULO II

Um murmrio de perplexidade correu entre os presentes. Pois a possibilidade de Alexander ser o pai da criana no passara, nem por um momento, pela mente de Jessie, Bill, Maggie ou Patrick.
 Por que no me disse?  Alexander indagou, num tom acusatrio, fuzilando Josephine com os olhos.
 Eu...
 Ns nos falamos com frequncia, por telefone, nos ltimos meses. Por que me escondeu algo to importante?
Josephine queria justificar-se, dizer que ficara muito confusa com aquela gravidez, antes de resolver assumi-la. Mas, temendo que ele reagisse mal, decidira guardar segredo.
Sempre soubera que Alexander era um homem livre, do tipo que detestava compromissos srios, sobretudo o casamento. Seu envolvimento com mulheres, embora frequentes, nunca iam muito alm de um caso superficial, sem consequncias.
Quantas vezes ele desabafara, reclamando de mulheres que queriam prend-lo para sempre, obrigando-o a despos-las, a suport-las pelo resto da vida! Josephine lembrava-se disso muito bem. E no queria, em hiptese alguma, ser mais uma a prend-lo, a pression-lo.
Receara, tambm, que se Alexander soubesse da gravidez logo no incio, optasse por abortar a criana. E isso ela no faria, de modo algum.
Por todas essas razes, assumira o beb sozinha. Tantas mulheres, nos dias atuais, tomavam essa atitude! Mulheres corajosas, lutadoras, auto-suficientes, que no necessitavam de laos de casamento para serem mes. E muitas delas revelavam-se mes dedicadas, zelosas, dignas da mais profunda admirao.
Josephine fechou os olhos por um instante, dizendo a si mesma que tudo no passava de um sonho ruim, que Alexander no a fitava daquela forma cruel... Mas, quando tornou a abri-los, ali estava ele, com a mesma expresso ofendida e furiosa, acusando-a duramente.
De algum modo, ela havia previsto que chegaria o momento da verdade... Que teria de dizer tudo a Alexander e esperar por sua reao. Mas por que aquilo tinha de acontecer justamente ali, na presena da famlia, como uma cena de novelas, ou filmes classe B?
 Estou esperando sua resposta  disse Alexander, por entre os dentes, arrancando-a das divagaes.
 Puxa, eu sabia que vocs dois compartilhavam tudo  Jessie interveio, espantada.  Mas nunca imaginei que dividissem a mesma cama. Esta  realmente a novidade do ano... Ou talvez do sculo!
 Cale-se, querida  Bill Smith repreendeu-a novamente, franzindo o cenho.
 Vamos conversar a ss  Josephine props, levantando-se. Voltando-se para Patrick Rafferty, indagou:  Ser que podemos usar o seu escritrio?
 Lgico, meu bem  o velho senhor consentiu, de imediato. Dirigindo-se ao filho, advertiu-o:  E veja l como fala com ela, meu rapaz. No quero v-lo maltratando nossa querida Josephine.
 Se algum aqui foi maltratado, esse algum fui eu  Alexander retrucou, num tom carregado de indignao. Depois, assumindo uma expresso sarcstica, acrescentou:  Mas parece que ningum est se importando com isso, no  mesmo? Todos s conseguem se preocupar com nossa querida Josephine.
 Voc se aproveitou dela, filho!  Maggie Rafferty exclamou, aflita.
 Que absurdo  esse, mame?  Alexander reagiu, ainda mais indignado.
 Ningum se aproveitou de ningum, tia Maggie  Josephine afirmou, com voz trmula.  Simplesmente aconteceu... Seria injusto condenar Alexander ou a mim, por isso.
 As mulheres so muito frgeis, meu bem. E nem sempre conseguem resistir ao assdio masculino, sobretudo se estiverem estressadas, ou carentes.
 Por quem voc me toma, mame?  Alexander indagou, perplexo.  Por um manaco sexual, ou algo assim?
 Veja l como fala com sua me, meu filho  Patrick censurou-o, chocado.
 Parem com isso, por favor  Josephine ordenou, elevando a voz.  E, pelo amor de Deus, no me olhem como se eu fosse uma pobre vtima do assdio de Alexander. No suporto esse tipo de viso tendenciosa e injusta.
 As mulheres so muito frgeis, querida  Maggie Rafferty insistiu.
 No seu tempo, tia Maggie...  Josephine argumentou, num tom carinhoso, mas firme.  Mas estamos no sculo XX. E as mulheres j no so mais indefesas ou vulnerveis, como antes.
 Isso  o que voc pensa, meu bem  a velha senhora retrucou.  As mulheres so muito sensveis e...
 Sensibilidade no  fragilidade, tia Maggie  Josephine a interrompeu.  E fragilidade no  fraqueza. Temos nossos pontos vulnerveis, sim, mas temos tambm nossa fora e auto-suficincia.
Josephine estava ofegante, devido ao intenso esforo que fazia, para manter a calma. Tomando flego, ela procurou normalizar a respirao. E depois de olhar um por um dos presentes, voltou a fitar Alexander, enquanto conclua:
 Eu... no gostaria de falar sobre algo que, afinal, foi to ntimo. Mas j que as cartas esto na mesa, no me resta outra alternativa seno esclarecer tudo.
Ela fez uma pausa, enquanto procurava as palavras mais adequadas para o que tinha a dizer:
 O que aconteceu entre Alexander e eu foi... como diria... uma espcie de descuido. Sim, acho que  isso: descuidamos de nossa amizade e acabamos nos entregando um ao outro. Mas fizemos isso de modo consciente, cumprindo o que ambos desejvamos, no momento. No dia seguinte, ficamos assustados e at envergonhados pelo que tnhamos feito. O prprio Alexander chegou a me pedir desculpas e eu ento respondi que no tinha por que censur-lo, j que ele no havia me forado a nada.
Um pouco mais confiante, devido ao fato de estar se expressando muito bem, J finalizou:
 Se eu dissesse que tudo isso foi muito natural, para mim, estaria mentindo. Pois me senti frgil e acho que Alexander tambm. Mas nem por um instante ocorreu-me conden-lo pelo ocorrido. Jogar a culpa numa carncia momentnea, ou acus-lo de ter se aproveitado de mim... seria um ato desprezvel, no concordam?
De novo o silncio veio coroar aquelas palavras. Todos pareciam concentrados no que tinham acabado de ouvir. Alexander j no se mostrava to furioso, mas a amargura ainda habitava seus olhos azuis.
 Lindas palavras, Josephine Smith  ele sentenciou, aps um longo momento.  Agradeo-a por no assumir o papel de vtima, nessa situao. Poucas mulheres, em seu lugar, agiriam assim.
Josephine assentiu em silncio e ele continuou:
 Mas o que me diz de sua atitude posterior? Por que calou uma verdade  qual eu tinha direito?
 Acho que ela ficou com medo de voc no querer assumir o beb  Jessie manifestou-se.
 Filha, estou comeando a perder a pacincia com voc  Bill Smith advertiu-a, num tom severo.
 No se intrometa numa situao que, por si s, j  bastante delicada.
 Eu s queria ajudar, papai  Jessie justificou-se.
 Pois a melhor maneira de colaborar, neste momento,  ficando calada.
 Tudo bem  Jessie assentiu, a contragosto.
 Voc falou, est falado.
Alexander e Josephine continuavam se olhando, alheios aos comentrios da garota.
 Vamos at o escritrio de papai  ele decidiu, voltando-se e afastando-se pelo corredor.
Josephine o seguiu em silncio.
Patrick Rafferty, que se tornara famoso na regio, como um competente criador de cavalos, tinha transformado uma das sutes do andar trreo da casa em escritrio. Ali ele recebia compradores e fornecedores.
Quando criana, Josephine adorava entrar naquele cmodo mobiliado de maneira austera, com antigos mveis de mogno e uma grande estante, com livros especializados em criao de cavalos. Livros que ela folheara tantas vezes, contemplando, fascinada, as fotos daqueles belos animais.
Havia, tambm, belos psteres numa parede. Um deles retratava Milky, o cavalo preferido de Patrick Rafferty. Ela e Alexander o haviam montado, na adolescncia.
Milky fora um grande reprodutor, em sua juventude. Agora, gozava o merecido descanso, pastando tranquilamente nos fundos da propriedade, desfrutando a velhice depois de tanto servir a seu proprietrio.
Naquele instante, porm, nem mesmo a viso do querido Milky seria suficiente para fazer Josephine sorrir.
O momento era de tenso. E ela precisaria de toda sua energia de que dispunha, para apaziguar a raiva e mgoa de Alexander.
Deixando-se cair sobre uma poltrona, ele encarou-a longamente, antes de sentenciar, uma vez mais:
 Voc no tinha esse direito.
 Talvez no  ela assentiu, com um suspiro, sentando-se na poltrona em frente.
 Se eu fosse um estranho a quem voc houvesse se entregado, numa noite de...
 Eu nunca me entregaria a um estranho  ela o interrompeu.
 Mas sou, antes de tudo, seu melhor amigo  Alexander prosseguiu, ignorando o aparte.  E, ainda por cima, sou pai da criana que voc espera...  Aps uma pausa, indagou:  Ou no?
 Sim, Alexander. Voc  o pai.
 E como voc descobriu que estava grvida?
 Do modo que ocorre a toda mulher. Minha menstruao falhou, senti que algo diferente estava acontecendo, fui ao mdico, fiz um teste e o resultado foi positivo.
 Simples, no?  ele comentou, com amarga ironia.  Voc fez tudo de maneira correta... Apenas, esqueceu-se de informar ao pai da criana sobre o fato.
 Perdoe-me, por favor  ela se desculpou, fitando-o no fundo dos olhos.  Mas esse  o tipo de coisa que no d para se dizer por telefone, ou por carta.
Na verdade, ao descobrir-se grvida, Josephine sentira-se tentada a procurar Alexander e contar-lhe tudo. Ficara fragilizada a princpio e estava acostumada a ter Alexander a seu lado, nos momentos difceis.
Depois, compreendera que tinha de encarar a situao de maneira madura, com firmeza e determinao. No seria justo correr para q ombro amigo de Alexander, para fazer-lhe uma revelao que sem dvida o deixaria to atnito quanto ela.
 Eu estive viajando,  verdade  disse Alexander.  Mas telefonava-lhe com frequncia. E teria ido a seu encontro, se voc assim me pedisse.
 Eu sei  Josephine aquiesceu, com um suspiro. Armando-se de coragem, decidiu ser franca e direta.  Bem, se voc quer mesmo saber a verdade...
 E s o que desejo, neste momento  ele afirmou, num tom mais brando. Seus olhos azuis j no traam tanta revolta. Ao contrrio, pareciam tristes e melanclicos.
 Eu tive medo  Josephine confessou, de um s flego.
 Medo... de qu?
 Oh, de tantas coisas... Que voc me pedisse para abortar, por exemplo.
 Eu jamais faria isso!  Alexander reagiu, indignado.  Conhecendo-me como conhece, voc realmente acha que eu seria capaz de pedir-lhe tal absurdo?
 No sei... Alguns homens entram em pnico, diante da possibilidade de se tornarem pais.
 Felizmente, no me enquadro nessa classificao.  De novo Alexander assumia uma expresso amarga.  Como voc pode ver, estava redondamente enganada a esse respeito.
 Est bem, peo desculpas por t-lo julgado capaz disso.
 Considero a questo do aborto como algo muito complicado. No me sinto no direito de julgar ningum, sob esse aspecto. Acho que depende das circunstncias. s vezes as pessoas no tm condies de criar os filhos e por isso recorrem a esse extremo. Mas este, felizmente, no  o meu caso e nem o seu.
Josephine concordou com um gesto de cabea, antes de afirmar:
 Havia, tambm, um outro motivo.
 Qual?
 Bem, voc sempre foi um homem livre e desimpedido. Nunca planejou casar-se, ter filhos, enfim... isso com que a maioria das pessoas sonha.
 Mas...
 Espere  ela o interrompeu, com um gesto.  Deixe-me terminar.  Tomando flego, prosseguiu.  Voc sempre ficou furioso com as mulheres que queriam envolv-lo em relacionamentos mais srios. Vou citar algo que voc costuma falar, Alexander: "um romance passageiro  a melhor maneira de se trocar um pouco de carinho e sexo, sem necessariamente atrelar-se aos laos do casamento." No  assim que voc pensa?
 Sim... ou ao menos pensava, at hoje.  Ele refletiu por alguns instantes.  Talvez eu me devesse casar com voc, Josephine.
 Eu detestaria prend-lo, obrigando-o a assumir um compromisso que voc no deseja. Seria injusto e, tambm, desnecessrio.
 Como assim?
 Ora, somos pessoas adultas e sensatas, no  mesmo? Passamos uma noite juntos e isso resultou numa gravidez. Agora, espero um filho seu. S que sempre fomos grandes amigos. Esta  uma das coisas que mais prezo, em minha vida. No quero perder nossa amizade, nem mesmo por este beb.  Josephine tocou o ventre, numa leve carcia.  Ele, ou ela, saber que voc  o pai. Ter um contato estreito com voc, ao longo de toda a vida. Isso j no  suficiente para ns?
 No sei  ele confessou, passando a mo pelos cabelos negros e lisos, num gesto de cansao.  Estou confuso, Josephine.
 Compreendo como se sente, pois j passei por esse processo. Agora, porm, passados trs meses, consigo raciocinar com certa clareza. Pode parecer chocante ser prtica, neste momento. Mas  exatamente disso que precisamos, para lidar com esta situao: praticidade, Alexander Rafferty.  E ela explicou:  Coloquemos as coisas em pratos limpos: voc nunca pretendeu ser pai, certo? Ao menos no de um filho meu... Certo?
Ele fitou-a com uma expresso de total abandono. E Josephine insistiu:
 Certo, Alexander?
Ele respondeu com um gesto vago. E Josephine prosseguiu:
 Sei que no podemos ignorar o que aconteceu. Bem que tentamos. E talvez tivssemos conseguido, se eu no houvesse engravidado.
 Talvez... Mas acho que seria impossvel.
 Exato. Concordo plenamente com voc, neste ponto. Seria tolice fingir que no houve nada... Mas tambm seria absurdo se, a partir de agora, passssemos a nos comportar como um casal apaixonado, s por causa do beb. Devemos encarar a vinda deste novo ser como algo muito precioso, em nossas vidas. Mas no podemos perder de vista que somos... amigos.
 Sbias palavras, Josephine. Voc s vezes demonstra uma maturidade surpreendente, para os seus trinta anos.
 Ainda bem que voc me compreende, Alexander.  Ela suspirou, aliviada.
 Mas existe uma outra questo.
 Qual?
 Como agiremos, daqui por diante? Temos de tomar providncias, preparar a vinda dessa criana.
 Oh, eu j cuidei de tudo. Vou trabalhar at o penltimo ms de gravidez, depois gozarei a licena-maternidade e ento retornarei ao emprego. Lgico que contratarei uma bab para cuidar do beb. E da a vida seguir seu curso.
 Voc traou um roteiro perfeito  Alexander comentou, com um misto de ironia e tristeza.  Mas parece que no fao parte dele.
 Como assim?
 Ora, voc no precisa de mim, j que no me citou sequer uma vez.
S ento Josephine compreendeu que o havia ferido, em seu amor-prprio. E apressou-se a explicar:
 Claro que o beb precisar de voc, Alexander. Se planejei tudo sozinha, foi apenas para no incomod-lo, ou melhor: para deix-lo  vontade. Assim, voc poder colaborar da maneira que achar mais adequada.
 Sim? E que maneira seria essa, se voc j cuidou de todas as providncias?
 No sei... por que no sugere alguma coisa? 
Inclinando-se em sua direo, Alexander colocou
ambas as mos sobre os joelhos da cala jeans, antes de indagar:
 Nunca lhe ocorreu que seria uma boa idia nos revezarmos nos cuidados com o beb?
 Claro, mas...
 Nos primeiros meses, creio que essa tarefa ficar a seu cargo. Mas depois, quando o beb estiver maiorzinho, poderei perfeitamente ficar com ele enquanto voc estiver trabalhando.
 Voc?  Josephine sorriu, incrdula.
 Acha-me to incompetente assim?  ele indagou, ofendido.
 No se trata disso, Alexander.
 Ento, qual  o problema?
 O seu estilo de vida. Voc vive viajando, sobretudo agora, que tem participado de movimentos ecolgicos e humanistas. Seus compromissos profissionais tomam-lhe todo o tempo.
 Sou um free-lance, Josephine. E preciso sobreviver.
 Eu sei. E no o estou censurando, por isso. Voc  um jornalista de projeo e agora est exercendo sua influncia para apoiar esses movimentos, que tanto admiro. Mas suas obrigaes o absorvero por completo, Alexander. Compreende o que quero dizer? Voc nunca estar em Londres por muito tempo. Como poder assumir o compromisso de cuidar do bebe?
Ele assentiu, pensativo, e Josephine continuou:
 Como j disse, no quero for-lo a nada. Tampouco desejo estabelecer planos com voc, a respeito da criao de nosso filho. Quando voc estiver presente, tenho certeza de que ir visit-lo e que lhe dar muito amor. Mas no quero criar outras expectativas a seu respeito.
 De qualquer forma, pretendo surpreend-la.
 Como assim?
 Darei um jeito em minha vida. Vou organizar meu trabalho de modo que no tenha de viajar com tanta frequncia. J no sou um correspondente de guerra. Portanto, no preciso me distanciar tanto da Inglaterra.
 Mas e quanto aos congressos e demais encontros com ecologistas do mundo inteiro, dos quais voc participa?
 J inventaram o avio, sabia?  ele retrucou, numa tentativa de fazer humor.  Posso perfeitamente me ausentar num dia e voltar no outro.
 Voc  um cigano, Alexander.
 Sou ingls, lembra-se? Nasci aqui mesmo, em East Anglia, tal como voc.
 No estou falando de locais, mas de seu corao... Voc  um aventureiro, Alexander Rafferty. E morreria de tdio se fosse obrigado a permanecer num lugar, por muito tempo.
 Depende... Se eu decidisse ficar em Londres, por causa de meu filho, ser que me sentiria entediado?
 A vida responder a essa pergunta. Por enquanto, no tome nenhuma providncia da qual poder se arrepender, depois. Seu trabalho  muito importante, sabe? Um jornalista famoso como voc pode dar um grande impulso aos movimentos ecolgicos.
Ele fitou-a com ar pensativo, antes de perguntar:
 E quanto ao seu trabalho, Josephine?
 Sem problemas  ela respondeu, com uma convico que, afinal, no era to forte assim.
Trabalhava numa grande empresa de informtica, como secretria de um dos scios. E sabia que uma ausncia prolongada poderia colocar seu emprego em risco.
 Vou conversar com meu chefe e contar-lhe que estou grvida  disse, por fim.  Assim, poderemos treinar, desde j, uma secretria para me substituir durante minha licena.
 E uma boa idia  ele concordou, um tanto vago.  Ser que funcionar?
 Espero que sim, Alexander.
O silncio caiu entre ambos, mas j no era denso e pesado, como antes. De sbito, ele levantou-se e puxou-a pela mo. Fitando-a nos olhos, segredou:
 Sabe de uma coisa?
 Diga.
 A perspectiva de ser pai me...
 Assusta?  ela completou.
 Sim.
 E natural que se sinta desse jeito. Depois, com o passar do tempo, voc ficar mais calmo e confiante.
 Assim espero.  Alexander sorriu, exibindo dentes perfeitos. E foi como se todo o ambiente ao redor se iluminasse.
Josephine sempre achara Alexander lindo, quando sorria. Naquele momento, porm, chegou a sentir algo mais... Uma emoo forte, a um s tempo excitante e assustadora.
 Meu querido amigo  murmurou.
Mas a palavra amigo parecia insuficiente para descrever Alexander, naquele momento. Ou melhor; insuficiente para definir o que ela estava sentindo.
 O que fomos fazer, Josephine?  a voz de Alexander soava to suave quanto uma carcia.
 O que a vida nos fez, Alexander?  ela retrucou, docemente.
 Creio que s nos resta seguir adiante, no?
 Isso mesmo.
 Diga-me... como voc est?
 Muito bem. Felizmente sou uma mulher saudvel. Fiz todos os exames necessrios e o resultado no poderia ser melhor.
 Fico feliz em saber. Mas no foi isso que perguntei.  Ele fez uma pausa.  Quero que me diga como voc est... aqui.  E tocou-lhe levemente o peito, na altura do corao.
Aquele leve toque causou em Josephine uma emoo ainda mais forte.
"Isso  natural", ela pensou, enquanto seu corao disparava, numa intensidade surpreendente. "Estou profundamente emocionada. Da esta sensao que no sei explicar ao certo..."
 Responda, Josephine  ele insistiu.
 O que posso dizer?  Ela baixou os olhos, com medo que Alexander adivinhasse a inquietao que lhe ia por dentro.  A princpio, fiquei confusa e assustada. Mas agora, passados trs meses, sinto-me feliz. Acho que serei uma boa me.
 No tenho dvidas a esse respeito. E como seu pai reagiu  notcia?
 Como qualquer outro pai... Ficou perplexo, disse que no esperava por isso, que queria que eu me casasse, antes de ter filhos. Mas depois mostrou-se to compreensivo e amigo... Agora, tem me apoiado de maneira incondicional.
 Eu no esperava outra coisa de tio Bill.
 Pois ... Creio que Jessie, com aqueles modos espevitados e rebeldes, ajudou-o a compreender que um neto no , exatamente, o fim do mundo. Ao contrrio: trata-se de um novo ser, um membro da famlia que deve ser recebido com todo amor.
Alexander considerou longamente aquelas palavras, antes de dizer:
 Talvez ele se sentisse mais tranquilo, se nos casssemos.
 Seus pais tambm adorariam a idia. Mas no. creio que seria justo.
 Por que no?
 Por tudo o que j lhe disse, Alexander. Sinto-me disposta a fazer qualquer coisa pelo bem do beb e de nossas famlias. Mas da a contrariar sua idia a respeito do casamento...
 Voc, at agora, s falou de mim. Mas e quanto a voc, Josephine? Como  que encara o casamento?
Delicadamente, ela soltou a mo de Alexander e voltou a sentar-se. Aquela emoo intensa continuava a perturb-la. Por isso, talvez fosse melhor distanciar-se um pouco daquele homem e de seus olhos profundos.
Recostando-se na poltrona, Josephine refletiu por alguns instantes e s ento respondeu:
 Como toda mulher romntica, sonho com um prncipe encantado, que chegar numa noite de luar, num cavalo branco, e me levar a seu castelo.
Ele sorriu, enternecido:
 Voc pensa realmente assim?
Ela concordou com um gesto de cabea:
 Sim, Alexander. No fundo, todas as mulheres esperam a mesma coisa. Claro que quase no existem mais castelos, nem prncipes a cavalos... Mas sonho com um homem bom, justo e sensvel, que me tocar no mais fundo de mim mesma e me levar ao paraso das emoes. Um homem que me ame e respeite, que me eleja a senhora de seu castelo, ou melhor, do seu corao.
Novamente o silncio caiu entre ambos. Mas agora havia uma certa tenso, no ar.
 Quer dizer ento que voc sonha em se casar...
 Sonho com o homem ideal.
 E um dia esse homem chegar... E criar meu filho.
 Um dia voc tambm se apaixonar por uma mulher, Alexander. Ela falar muito alto ao seu corao e o far acreditar em amor eterno.
 No quero que esse homem seja como Justin Wood  ele disse, de sbito, ignorando-lhe o comentrio.
	No h nada mais entre Justin e eu, lembra-se? Alis, na noite em que fizemos amor, eu estava justamente sofrendo pelo final de meu relacionamento com ele.
	Voc no perdeu nada. Justin Wood nunca a mereceu. Alis ele no se enquadra, em absoluto, na sua imagem de prncipe encantado.
Josephine sentia-se obrigada a concordar. Justin Wood, que trabalhava na mesma empresa que ela, era um homem galante, mas um tanto frio e calculista.
Durante algum tempo, Josephine ficara interessada nele. Mas agora sabia que nunca o amara de verdade. Entretanto, h trs meses, quando Justin rompera a relao, ela sentira-se arrasada... Sobretudo pelo ultimato que ele lhe dera:
"Querida, sou um homem normal e saudvel. Quero tudo de um relacionamento, entende? J faz dois meses que estamos saindo juntos e voc vive se esquivando a um contato maior... Desse jeito, no d para continuar. Ou voc se entrega a mim, de verdade, ou ento ser o fim de tudo."
Na poca, Josephine acreditava-se apaixonada. .Mas nem por isso estava disposta a ceder quele tipo de presso. E reagira  altura:
"Acho que as coisas devem acontecer, simplesmente. No quero forar um contato maior, Justin. Por que no continuamos a sair juntos, at que estejamos prontos para a entrega total?"
"Voc anda lendo romances demais, gracinha. Hoje em dia, as pessoas so mais avanadas. Muitas garotas vo para a cama logo na primeira vez em que saem com o namorado."
"Este no  o meu caso."
"Estou vendo que no, criana. E confesso que me sinto impaciente com suas frequentes recusas."
"Por favor, espere at que eu esteja pronta."
"Estou farto de esperar. Vamos, no seja to complicada... Ns j nos conhecemos razoavelmente. Por que adiarmos um momento que poder ser to bom para ambos? A vida  breve, Josephine. E essas manias de menina provinciana acabaro me fazendo perder o interesse por voc. No gosto de perder nada, entende? Quero aproveitar a vida o mximo possvel."
Chocada com a maneira fria de Justin referir-se ao sexo, Josephine recuara. E ento ele rompera, depois de acus-la de fria e insensvel.
Amargurada e triste, Josephine correra para Alexander, em busca de apoio... E encontrara muito mais do que isso.
 No posso imagin-la casada com um homem to frio como Justin Wood  Alexander repetiu, arrancando-a das divagaes.
 Que idia mais absurda!  ela retrucou, aborrecida.  Voc sabe perfeitamente que no h nada mais entre ns.
 Mas e se voc se apaixonar por algum parecido com ele? A perspectiva de meu filho ter contato com um homem desse tipo me causa pnico.
A insistncia de Alexander irritou-a. E Josephine reagiu:
 E quanto a voc? E as mulheres com quem se envolve? Ser que so muito melhores do que Justin?
 No sei. Mas a diferena  que no pretendo me casar com nenhuma delas.
Ambos se encararam com ar de desafio. E ento desataram a rir, dando-se conta do absurdo da situao.
 Que conversa mais absurda  Josephine comentou.  Do que, exatamente, estamos falando?
 Dos nossos temores, eu creio...
 Que bobagem...
 Concordo. Vamos parar com essas tolices. O que realmente importa  que faremos tudo o que estiver ao nosso alcance... pelo nosso filho.
 Assim  que se fala, Alexander Rafferty. Agora, com licena.
A passos largos, Josephine caminhou at o banheiro contguo ao escritrio.
 Voc est bem? Alexander indagou, preocupado.
 Estou tima. S quero me refrescar um pouco.
Josephine entrou e fechou a porta. Aproximou-se da pia e, abrindo a torneira, lavou as mos e o rosto. Precisava ficar sozinha, um pouco, para se recompor.
A conversa com Alexander tinha sido bem mais intensa do que ela esperava. Mas isso no era motivo para deix-la to inquieta. Sentia-se frgil, com vontade de chorar. S no sabia porque estava assim.
Fechando os olhos, Josephine consultou o corao, perguntando-se o que, afinal, estaria acontecendo.
Uma voz interior alertou-a de que Alexander j no era apenas um bom e querido amigo de sempre... Que de sbito havia se transformado numa pessoa especial.
 Claro que sim  Josephine pensou, em voz alta, abrindo os olhos e mirando-se no espelho.  Afinal, ele  o pai do meu filho.
E parou por a. No queria ir mais alm, naquela anlise. No estava em condies para tanto.

CAPTULO III

Sentada  sua mesa de trabalho, Josephine releu vrias vezes o documento que havia encontrado minutos atrs, ao chegar.
Tinha uma sala s para si, no ltimo andar da MacGrew & Bartnett, uma das maiores empresas da Europa, especializada em informtica.
Como secretria de Stanley Bartnett, scio majoritrio da empresa, ela desfrutava um alto status, entre os funcionrios.
Havia lutado muito para chegar quele posto e adorava seu trabalho. Esse, talvez, fosse o segredo de sua eficincia, constantemente elogiada nas reunies da diretoria.
Josephine lembrava-se do dia em que fizera um teste, entre centenas de candidatas, para ocupar aquele cargo. Sentira-se nervosa, confusa, e sara do exame com a certeza de ter sido reprovada.
Uma semana depois, recebia um telegrama, convocando-a a comparecer ao Departamento Pessoal da MacGrew & Bartnett. Cerca de dez dias mais tarde, ela assumia o posto.
Tudo isso acontecera h dois anos...
Agora, tambm seu emprego pertencia ao passado. A prova estava bem ali, Josephine pensou, relendo uma vez mais o aviso prvio que havia encontrado sobre sua mesa, minutos atrs.
 No  possvel  murmurou, ainda tentando negar a realidade, mas j sabendo que seria intil. Tudo estava muito claro. S ela insistia em no ver.
Anunciara sua gravidez, na empresa, to logo voltara de East Anglia, h pouco mais de duas semanas.
A notcia fora recebida com euforia, por parte da maioria dos colegas. Mas Josephine percebera, em seu chefe, um ar de contrariedade. Mesmo quando ela se oferecera para treinar uma substituta, Stanley Bartnett mostrara-se reticente. Dissera apenas que ia pensar sobre o assunto.
E ali estava sua resposta: demisso.
Recostando-se na cadeira, Josephine fechou os olhos, tentando ordenar os pensamentos. Precisava se acalmar, absorver o golpe e pensar no que faria, dali por diante.
Mas, em vez disso, ela apenas obedeceu ao impulso que sentia: levantando-se de um salto, saiu a passos largos e dirigiu-se  sala do chefe, separada da sua por um pequeno corredor.
Bateu  porta e entrou, sem esperar pela resposta.
Stanley Bartnett falava ao telefone e fez-lhe um sinal para que se sentasse.
Em qualquer outra circunstncia, Josephine teria sado, para voltar minutos depois, a fim de no perturbar a privacidade do chefe.
Naquele momento, porm, no estava se importando muito em ser delicada. Queria justia ou, ao menos, saber o verdadeiro motivo pelo qual estava sendo demitida. Pois o aviso prvio no fora nada esclarecedor. Ao contrrio: em termos bastante elogiosos, a empresa agradecia-lhe os servios prestados e comunicava que, infelizmente, teria de dispensar seus prstimos.
O tom refinado, e ainda por cima uma boa gratificao, anunciada no final do documento, no ocultavam a verdade, ou melhor: o verdadeiro motivo da demisso... Nada mais, nada menos, do que sua gravidez, Josephine pensava, enquanto observava o chefe, que continuava falando despreocupadamente ao telefone.
Aps alguns minutos, Stanley Bartnett desligou e fitou-a com aquele sorriso profissional que tantas vezes dirigia aos fornecedores, ou clientes.
 Ol, srta. Smith. Algum problema?
 Dispense as formalidades, sr. Bartnett  ela respondeu, num tom seco.  O senhor sabe muito bem qual  o problema. Portanto, poupe-me de sua finesse e vamos direto ao assunto.
 A senhorita me parece nervosa...
 E no  para menos. Afinal, acabo de receber uma carta de aviso prvio, sem causa justificvel.
 Oh, sim... Um fato lamentvel, eu diria. Mas teremos de conter algumas despesas, sabe? Por isso nos sentimos obrigados a demitir alguns funcionrios. timos funcionrios, por sinal.
 E o senhor pretende trabalhar sem secretria, daqui por diante?  ela indagou, rspida.
 Bem... Ao menos tentarei, srta. Smith.
 Sabe de uma coisa, sr. Bartnett?  Josephine encarou-o com firmeza.  Acho que est mentindo.
 Mentindo?  ele repetiu, com exagerado espanto.  Ora, o que a faz pensar...
 Que um executivo da sua categoria jamais poderia trabalhar sem o auxlio de uma secretria, sr. Bartnett?  ela completou e respondeu em seguida:
 Minha experincia na empresa deu-me uma idia exata, a respeito de como as coisas funcionam por aqui. Por isso afirmo, sem sombra de dvida, que sua inteno  contratar outra secretria, to logo eu desocupe minha sala e esvazie as gavetas de minha mesa de trabalho... Certo?
Stanley Bartnett desviou os olhos, fingindo-se concentrado num memorando que tinha diante de si. Parecia estar ganhando tempo, Josephine deduziu, e com toda a razo. Pois, aps alguns instantes, ele voltou a encar-la, com aquela expresso impassvel que sempre o caracterizara.
 Srta. Smith, em minha opinio seria totalmente inadequado discutirmos os motivos de sua demisso. J lhe expliquei que temos de conter os gastos. Alis, minha empresa no  a nica do pas a tomar essa medida.
 A crise pela qual estamos passando  mundial, sr. Bartnett  Josephine sentenciou.  Mas...
 Ah, enfim concordamos em algum ponto  ele a interrompeu, categrico. A senhorita disse bem: a crise  geral. E foi justamente pensando nisso que tomei a deciso de oferecer-lhe uma gratificao pelo tempo de servio que dedicou  empresa.
De fato, a soma acusada no final do aviso prvio era bastante significativa, Josephine lembrou-se. Mas no anulava a injusta razo pela qual estava sendo demitida.
 A senhorita demonstrou sua eficincia de maneira admirvel, desde que comeou a trabalhar aqui. Por isso solicitei ao departamento pessoal que lhe entregasse uma carta de referncias. Com ela, no ter dificuldade para encontrar outro trabalho.
 Ser que no, sr. Bartnett?  Josephine retrucou, num tom spero.
 Oh, tenho certeza de que...
 Qual empresa empregaria uma mulher grvida, nos dias de hoje?  Josephine o interrompeu.
 Ora, isso no  problema.
 Mas foi o problema, ou melhor, o motivo pelo qual o senhor resolveu me demitir.
 Por favor, seja razovel.  Stanley Bartnett comeava demonstrar sinais de impacincia.  A senhorita insiste em ignorar minha boa vontade. A gratificao que estou lhe oferecendo, por exemplo...
 Apesar de bastante significativa, certamente  bem inferior ao que o senhor teria de me pagar, se eu levasse este caso  justia.
 Srta. Smith!  Stanley Bartnett reagiu, chocado.
 Ora, no banque o inocente, sr. Bartnett  Josephine o desafiou.  O senhor sabe muito bem que, se eu decidir process-lo, terei muitas chances de ganhar.
 E pretende fazer isso, srta. Smith?
 O senhor bem que merecia, mas creio que no o farei. E bvio que eu ganharia uma indenizao, alm do direito de reassumir meu cargo. Mas, de repente, a idia de continuar trabalhando aqui me causa nuseas.  Josephine dirigiu-se  porta.  A propsito, estou de sada. No cumprirei o ms de aviso prvio que recebi. Se o senhor quiser se aproveitar deste fato para demitir-me por justa causa, fique  vontade...
 Eu jamais faria isso, senhorita.
 Quem sabe?  Voltando-se, ela declarou:  Quanto  gratificao, dispenso. Quero apenas a quantia a que tenho direito, pelo meu tempo de servio.
 Mas, senhorita...
 No desejo discutir o assunto, sr. Bartnett. J a carta de referncias ser importante para mim. Remeta-a para minha casa, por favor. Isso era tudo. Tenha um bom dia.  E Josephine retornou  sua sala, presa de um intenso alvio. Tinha falado exatamente o que queria e isso causava-lhe um profundo bem-estar.
Difcil seria acordar, no dia seguinte, e deparar com a dura realidade do desemprego, da falta de perspectiva. Mas daria um jeito de superar aquele obstculo. Afinal, era uma mulher forte, saudvel, decidida e... tinha um motivo a mais para lutar: o beb.
 Mos  obra  ela se ordenou, abrindo a primeira gaveta da mesa de trabalho. Estava verificando seu contedo quando, atravs da porta envidraada que dava para um corredor, viu Justin Wood se aproximando.
Estava corretamente vestido, como sempre, num terno cinza, com camisa e gravata combinando. Era um homem alto, de cabelos negros como os de Alexander, e olhos azuis-acinzentados.
Pensando bem, ele at se assemelhava a Alexander, Josephine refletiu, observando-o com ateno. Apenas, os olhos azuis de Alexander tinham uma expresso quente e intensa, ao contrrio dos de Justin, que eram um tanto frios.
Os traos do rosto, embora no to belos quanto os de Alexander, eram fortes e harmnicos.
Talvez o que mais diferenciasse ambos fosse a maneira como se vestiam. Alexander tinha um estilo mais descontrado, enquanto Justin seguia o padro clssico. Josephine jamais o vira sem o costumeiro terno e gravata, nem mesmo quando ele a levava para passear, no tempo em que namoravam.
 Bom dia, Josephine  ele a saudou, abrindo a porta envidraada.
 Bom dia  ela respondeu, interrompendo por um momento o gesto de retirar uma pasta da gaveta.
 Gostaria de falar com o chefe  Justin anunciou, referindo-se a Stanley Bartnett.  Ser que ele pode me receber?
 V perguntar.  Josephine apontou o hall que conduzia  sala de Stanley Bartnett.
Justin fitou-a, surpreso.
 No seria melhor voc consult-lo, pelo interfone?
 Sim, mas acontece que no trabalho mais aqui:
 Como?
Ante a expresso de espanto de Justin, ela estendeu-lhe a carta de aviso prvio.
 Veja voc mesmo. Assim, no perder seu tempo fazendo perguntas.
Justin leu o documento rapidamente e soltou um assovio leve, traduzindo assim seu espanto. Em seguida devolveu-o a Josephine, com o seguinte comentrio:
 Bem, ao menos a empresa a est indenizando com uma boa soma.
 Dispensei.  Foi a resposta seca de Josephine.
 Voc... o qu?
 No quero o que no me  devido  ela afirmou, categrica.  Se Stanley Bartnett pensa que vai comprar sua paz de conscincia com essa quantia, est muito enganado.
 Paz de conscincia?  Justin repetiu, confuso.
 O que voc quer dizer com isso, criatura?
 O bvio  Josephine respondeu, simplesmente.
 Stanley Bartnett s me demitiu porque estou grvida. E ele no est disposto a ficar sem secretria, durante o perodo em que eu gozar minha licena-maternidade. Propus-lhe treinar uma funcionria para me substituir. Eu faria isso com toda a dedicao, Justin, e a colocaria em forma para cumprir as funes que desempenho. Mas meu querido chefe preferiu uma soluo mais radical, como voc pode ver...
 Ento  verdade.  Justin deixou-se cair sobre a cadeira em frente  mesa de trabalho de Josephine.  Voc realmente est grvida?
 Sim.
 Por que no me contou?
 Voc no estava em Londres, quando decidi anunciar o fato, h pouco mais de duas semanas.
 Fui fazer uma viagem de negcios, mas voltei h quase dez dias.  E Justin insistiu:  Por que no me disse nada?
Josephine reagiu, espantada:
 Ora, no me consta que eu lhe deva satisfaes sobre minha vida, Justin. Afinal, nosso namoro terminou h quase quatro meses.
 Mesmo assim, voc deveria ter me falado... considerando tudo o que houve entre ns.
 Talvez fosse mais prprio dizer o que no houvesse..  ela retrucou.  Afinal, voc rompeu comigo justamente por que me recusei a precipitar as coisas.
Ele estreitou os olhos cinzentos, como se considerasse as palavras de Josephine. Ento questionou-a duramente:
 Por precipitar as coisas, suponho que voc queira referir-se a uma relao mais profunda, muito natural de acontecer entre um homem e uma mulher, desde que se sintam atrados um pelo outro. Este era o meu caso, mas no o seu.
Josephine no argumentou e ele prosseguiu:
 Voc foi, talvez, a nica mulher que me rejeitou. Isso mexe um bocado com o amor-prprio de um homem sabe?
 Imagino que sim, sobretudo quando se trata de algum to competitivo quanto voc.
Justin sorriu, com ar superior.
 Competitividade  a regra deste final de sculo, minha querida.
 Discordo plenamente. A competitividade  um mal de fim de sculo, que inclusive embaa a viso das pessoas a respeito de outros valores bem mais importantes, tais como tica, humanidade, dignidade... enfim, essas coisas com as quais pouca gente continua se importando.
 Voc  uma eterna romntica, Josephine Smith  ele sentenciou, meneando a cabea.  E um tanto ingnua, tambm.
 Por que diz isso?  ela indagou, intrigada.
 Entre outras coisas, porque deveria agarrar, com ambas as mos, a gratificao que Stanley Bartnett lhe ofereceu. Vindo de quem vem, essa uma atitude  surpreendente, sabe? Afinal, Stanley Bartnett no abre a mo nem para dar bom-dia...
 E por isso devo agradec-lo por se mostrar to generoso?  ela retrucou, irnica. Em seguida assumiu uma expresso sria.  De qualquer forma, no estou disposta a discutir este assunto, nem com voc, nem com ningum.
 Certo. No est mais aqui quem falou.  Justin fez uma pausa, antes de perguntar:  E voc est bem, Josephine? Refiro-me  sua gravidez.
 Sim, obrigada.
 E h quanto tempo est grvida?
 Vou completar o quarto ms daqui a pouco mais de uma semana  ela respondeu, voltando a concentrar-se no trabalho de esvaziar a gaveta.
Justin assentiu com um gesto de cabea, antes de concluir:
 Isso significa que voc engravidou logo aps o nosso rompimento.
 Exato.
 Ento, havia mais algum? Quero dizer, voc no quis aprofundar a relao comigo por que estava interessada em outro homem?
 No.  Josephine fitou-o com severidade.
 Ento, como se explica esse fato?
 Aconteceu, simplesmente. Trata-se de uma gravidez acidental, se  isso que quer saber.
Justin estreitou os olhos cinzentos e sua voz soou fria, ao dizer:
 Se queria se divertir com algum, por que no comigo? Por que escolheu outro homem?
Josephine reagiu com indignao:
 Em primeiro lugar, Justin Wood, eu no costumo me divertir com sexo. Para mim, este  um assunto srio. Em segundo lugar, no lhe devo satisfaes a esse respeito.
 Ser que no? Ser que voc no estava me traindo, durante nosso namoro?
 No costumo fazer isso. S me relacionei com o pai do beb depois do nosso rompimento.  Josephine absteve-se de dizer que entregara-se a Alexander justamente na noite em que Justin terminara o namoro. Era prefervel assim, ela decidiu, em pensamento, antes de acrescentar:  E agora, se no se importa, preciso desocupar esta sala.
 Para que tanta urgncia? Se recebeu o aviso prvio hoje, s ter de fazer isso daqui a um ms.
 No vou cumprir o aviso. Pretendo ir embora ainda nesta manh.
 Nesse caso, Stanley Bartnett poder retirar a gratificao, que to generosamente lhe deu.
 Que se dane a gratificao  ela quase gritou.  J lhe disse que no vou aceit-la. E agora, por favor, d-me licena, sim?
 Se entendi bem, voc est me mandando embora?
 Exato.
 Puxa, estou francamente chocado.  Justin sorriu, irnico, ostentando aquele ar superior que sempre o caracterizava.
E Josephine perguntou-se como pudera julgar-se apaixonada por aquele homem, algum dia... No que Justin fosse um mau-carter. Apenas, ele no tinha nada a ver com seu mundo. Seus valores, por exemplo... A certeza de que deveria sempre vencer, a qualquer custo, a frieza e o calculismo com que lidava com a maioria das situaes... Tudo isso mostrava-lhe, agora, que Justin nunca fora e nunca seria seu prncipe encantado. Ela se iludira, essa era a verdade.
 Vou fingir que no ouvi sua grosseria  ele gracejou, interrompendo-lhe os pensamentos. Aps alguns instantes, comentou:  Se bem me lembro, voc no costumava vir trabalhar de carro.
 Isso mesmo.
De fato, como Josephine morava a dez quarteires da empresa, ela preferia tomar um nibus ou lotao, em vez de utilizar seu pequeno Escort. s vezes, quando sentia-se disposta, fazia o trajeto a p.
 E como pretende levar suas coisas para casa?  ele indagou.  No estado em que encontra, no  recomendvel carregar peso.
 Chamarei um txi  foi a resposta seca de Josephine.
 De modo algum. Eu a levarei.
 Agradeo, mas no ser necessrio.
 Fao questo, minha querida  ele insistiu.
 Obrigada, mas...
 No aceitarei um no como resposta  Justin replicou, decidido.
Josephine conhecia-o o suficiente para saber que ele nunca mudava de idia. Sem muita vontade, aceitou o oferecimento:
 Nesse caso, eu agradeo. Mas voc realmente no precisava se incomodar.
 No ser incmodo e sim um prazer. Agora, com licena. Vou conversar com o manda-chuva e j volto.
Quando Justin retornou, cerca de quarenta minutos depois, Josephine j estava desocupando a ltima das trs gavetas de sua mesa de trabalho.
Sobre o tampo de mogno, acumulavam-se os objetos pessoais que ela usara nos ltimos dois anos: o copo de cristal para tomar suco de frutas, o prato de cermica, que alis fora presente de Alexander, um peso de papis, uma agenda com desenhos de Miro... muitas outras coisas.
 O ambiente de trabalho  como um segundo lar  comentou, melanclica.  Acho que  por isso que trazemos tantos objetos pessoais... para torn-lo ainda mais aconchegante.
 As mulheres tm esse curioso costume  disse Justin voltando a sentar-se na cadeira, em frente  mesa.  Ns, homens, somos mais prticos.
 No creio que esta seja uma questo de sexo,
mas de carter  Josephine contraps.  Alexander, por exemplo,  como eu. Ele gosta de carregar alguns objetos pessoais, para onde quer que v. Lembro-me de que ele sempre leva um porta-incensos, um pequeno espelho com moldura de peroba...
 Quem  Alexander?  Justin indagou, interrompendo-a. E antes que Josephine respondesse, recordou-se:  Ah, sim, agora me lembro. Trata-se daquele seu amigo de infncia, que gosta de arriscar o pescoo nas zonas de guerra. Bem, no o condeno. Imagino que ele ganhe o suficiente para pr sua vida em risco daquele jeito. A propsito, eu costumava ler suas reportagens, no suplemento de domingo do News-day. Mas j faz tempo que no publicam nada dele.
 Alexander j no trabalha como correspondente de guerra. Ele est escrevendo um livro sobre suas experincias e tambm participando de movimentos ecolgicos.
 Ora, este no  l um negcio recomendvel. O idealismo nunca traz bons lucros.
 H pessoas que se guiam por outras coisas, alm do dinheiro  Josephine afirmou, aborrecida.  J pensou nisso, Justin?
 Oh, sim  ele respondeu, sem o menor interesse por aquelas palavras.  Mas diga a seu amigo que ele vai se dar mal. Hoje em dia, notcias sobre guerra vendem muito mais do que campanhas de educao ambiental, ou coisas no gnero.
 No direi  ela respondeu, com veemncia.
 Mas, mesmo que o fizesse, Alexander no desistiria de seus ideais, por isso.
 Pobre rapaz.
 Pobre por qu? Ele est fazendo o que gosta e poucas pessoas no mundo podem dizer o mesmo.
Justin sorriu, fitando-a como se ela fosse uma criana:
 No   toa que voc e seu amigo se do to bem. Afinal, ambos so idealistas.
 E assim pretendemos continuar.  Josephine terminou de esvaziar a ltima gaveta e levantou-se.  Isso  tudo, Justin. Vou pedir ao pessoal do almoxarifado para me arranjar uma caixa de papelo.
 Boa idia.
 Tem certeza de que ainda quer me levar para casa? Posso perfeitamente chamar um txi...
 De jeito nenhum. Fao questo.
 Mas voc no precisa trabalhar?
 Minha querida, sou um executivo desta empresa. Por isso, posso me permitir um pouco de flexibilidade, com relao a meus horrios de trabalho. E agora, se me permite uma sugesto...
 Qual?
 Ligarei para minha sala e pedirei  secretria para providenciar a tal caixa de papelo. Enquanto isso, voc bem que poderia ir at a sala de Stanley Bartnett, para despedir-se adequadamente. Ele ficou chocado com sua atitude, sabia?
 Chocada fiquei eu, ao compreender que nada represento para esta empresa, alm de um simples nmero. E como deixei de ser conveniente, o sr. Bartnett colocar outro nmero, quero dizer, outra funcionria em meu lugar.
 Voc est encarando a situao de uma forma exageradamente dramtica.
 Eu sinto assim.  Pegando o telefone, Josephine acrescentou:  Agradeo seu oferecimento, mas no vejo por que importunar sua secretria, quando posso perfeitamente ligar para o almoxarifado e pedir uma caixa de papelo, sem maiores problemas.
Minutos depois, Josephine arrumava seus objetos no interior da caixa, trazida por um antigo funcionrio, que emocionou-se ao saber que ela estava de partida.
 No se esquea de ns, srta. Smith.
 Como poderia, sr. Loreman?
Assim que o velho funcionrio saiu, Josephine anunciou:
 Agora vou falar com mais algumas pessoas. Voltarei num instante.
 Certo  Justin assentiu.  A propsito, Josephine...
 Sim?  ela indagou, enquanto abria a porta envidraada, para sair.
 Suponho que voc v se despedir apenas dos funcionrios que lhe so mais queridos, certo?
 Exato.
 E se eu no estivesse aqui... voc iria at minha sala, para me dizer adeus?
 No sei  Josephine respondeu, sem pensar.
 Obrigado. Sua sinceridade  comovente.
 Oh, desculpe-me  ela justificou-se, embaraada.  Acho que estou muito nervosa e desgastada. Por isso respondi desse jeito. Mas, pensando bem, acho que sim... Eu iria me despedir de voc.
 Vou fingir que acredito, Josephine Smith. Mas a primeira resposta  a que vale.
 Para um homem prtico, voc est dando importncia demais a detalhes que, afinal, no significam nada  Josephine sentenciou, com um misto de gracejo e ironia.  Que diferena faz se a pobre Josephine Smith pretendia dizer-lhe adeus ou no? Afinal, o que vale, realmente,  dinheiro no bolso. No  assim que se deve pensar, Justin Wood?
Ele sorriu, dessa vez sem" aquele ar de superioridade que tanto a irritava.
 Sabe de uma coisa, Josephine Smith? Voc  uma mulher intrigante. Gostaria de t-la conhecido melhor.
 Ora...  ela brincou novamente.  Voc diz isso para todas.
 E sempre consigo conquist-las  ele retrucou, no mesmo tom.  O problema  que com voc no funcionou.
 Toda regra tem exceo, Justin Wood.
 Talvez ainda esteja em tempo de recomearmos...
 Isso no  possvel  Josephine respondeu, num tom srio.  Est fora de cogitao, Justin.
 Se voc diz... no vou insistir.
Josephine sorriu e, com um aceno, saiu da sala. Caminhando a passos largos pelo corredor carpetado, ela pensava em como suportaria o desemprego... Como acordaria no dia seguinte?
Talvez fosse melhor entender, desde j, que aquela era a ltima vez que pisava o macio carpete bege, que contemplava os quadros expostos na parede, que entrava no elevador...
As lgrimas inundaram-lhe os olhos e ela enxugou-as com um gesto nervoso.
Nada de choro, nada de tristeza. Teria todo o tempo do mundo para sentir saudade da MacGrew & Bartnett. Mas, agora, precisava ser forte. Entrara ali de cabea erguida... e assim sairia.

CAPTULO IV

To logo entrou no reluzente Mercedes vermelho de Justin Wood, Josephine perguntou-se, uma vez mais, se teria sido uma boa idia aceitar aquela carona.
Estava triste e nervosa. A ltima coisa que desejava, no momento, era conversar.
Justin, ao contrrio, mostrava-se com tima disposio. Tagarelava sobre os progressos que fizera na MacGrew & Bartnett, durante os ltimos meses, e cogitava em abrir seu prprio negcio.
 J conheo o suficiente para fundar uma empresa de informtica e ficar com todos os lucros  ele dizia, enquanto acionava a ignio.  Juntei algum capital e, dentro em breve, terei o bastante para iniciar este empreendimento. Da chamarei voc para trabalhar, Josephine.
 Obrigada  ela agradeceu, sem muito interesse. Com amargura, acrescentou:  Ao menos voc no  do tipo de Stanley Bartnett, que parece ter horror a pagar licena-maternidade a uma funcionria que sempre lhe foi fiel.
 Oh, eu lhe pagaria todos os seus direitos, pois sei o quanto voc  eficiente.
 Como poderia, se nunca trabalhamos diretamente juntos?
 Ora, se voc no fosse a competncia em pessoa, no teria se mantido no cargo de secretria de Stanley Bartnett, durante dois anos.
Josephine no respondeu. Estava ansiosa para chegar em casa, tomar um banho, relaxar e pensar no que faria de sua vida profissional, dali por diante.
Talvez fosse intil procurar emprego. No conseguiria muita coisa, no estado em que se encontrava.
A menos que trabalhasse por conta prpria... Ela pensou, sentindo que acabava de encontrar um bom ponto de partida. Afinal, tinha vrias habilidades: falava duas lnguas, alm do Ingls. Era estengrafa, boa digitadora e revisora. Conhecia a linguagem comercial e at traduzia, vez por outra, artigos de revistas francesas, especializadas em informtica. Portanto, por que no comear seu prprio negcio?
Naturalmente, no tinha a pretenso de Justin. No precisava fundar uma empresa. Apenas, poderia trabalhar como free-lance, montar seu escritrio em casa e sobreviver relativamente bem.
A grande vantagem era que no precisaria sair de casa, para trabalhar. Poderia ficar com o beb e, com a ajuda de uma boa bab, teria meio perodo disponvel para cuidar de seus afazeres.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Josephine. Era incrvel como, quando uma porta se fechava, outra se abria...
 Perdoe minha sinceridade, mas acho que compreendo a posio de Stanley Bartnett.  A voz de Justin interrompeu-lhe o fluxo de pensamentos.
 Como assim?  Josephine indagou, voltando-se para observ-lo.
Com o olhar atento ao trnsito, ele explicou:
 Acho que um homem na posio de Stanley Bartnett no pode se dar ao luxo de ceder ao corao. Ele precisa pensar no bom andamento dos negcios. E como fazer isso, sem uma secretria competente?
 Quer dizer ento que voc concorda com Stanley Bartnett? Acha que ele teve razo em me demitir?
 No se trata disso  Justin respondeu, esquivo.
 Agora h pouco, voc dizia que, se abrisse uma empresa, me chamaria para trabalhar e pagaria todos os meus direitos.
 Exato. Mas eu estava justamente analisando a situao, sob outro ngulo. Digamos que eu estivesse na posio de chefe...
 Agiria da mesma forma  Josephine concluiu.
 No sei... De qualquer forma, isso no importa, agora.  Justin parou em frente ao pequeno edifcio de trs andares, onde Josephine morava.  Bem, aqui estamos. Vou ajud-la a descarregar as coisas.
 No  preciso. Eu mesma levarei a caixa, que por sinal no est pesada.
Justin sorriu, depois de desligar o motor.
 Voc pode me acusar de ser frio e calculista, doura. Mas nunca poder dizer que no sou um cavalheiro.
 Est bem, Justin. Eu agradeo, mais uma vez.
O apartamento de Josephine ficava no primeiro
andar do edifcio. Era amplo, espaoso e claro, com uma sala dividida em dois ambientes, duas sutes e uma grande varanda, que oferecia uma bela vista da praa em frente.
Tratava-se de um apartamento antigo, construdo num tempo em que a concepo de espao era bem diferente da atual.
Josephine alugara-o por um preo razovel, logo depois de ter comeado a trabalhar na MacGrew & Bartnett.
Com o fundo de garantia e outros benefcios que receberia em breve, teria o suficiente para pagar o aluguel dos prximos meses. Durante esse tempo, procuraria se reestruturar, emocional e financeiramente.
A sala era decorada com mveis de madeira clara, com estofados em verde-musgo. As cortinas, tapetes e almofades obedeciam ao mesmo tom, com leves variaes.
Uma parte do ambiente funcionava como sala de visitas, com um jogo de sofs de trs e dois lugares, duas poltronas e uma mesinha de centro, sobre um carpete com motivos persas.
A mesinha tinha um tampo de mrmore, combinando com outras duas, menores, de canto.
Na outra parte da sala havia uma estante com aparelhagem de som, tev e vdeo. CDs e fitas ocupavam uma grande prateleira, ao lado de muitos livros, que eram a paixo de Josephine. Ali ela criara um ambiente mais descontrado, com esteiras e almofades, para poder sentar-se  vontade enquanto ouvia msica, ou dedicava-se  leitura.
 Sua casa  muito bonita  Justin comentou.
 Voc j a conhecia, no?
De fato, ela j convidara Justin para jantar, por duas vezes, no incio do namoro de ambos. Delicadamente, esquivara-se de seu assdio, sugerindo que sassem para tomar um drinque num bar noturno das proximidades.
 Sim, eu a conhecia, e continuo achando-a muito aconchegante  ele opinou.
 Obrigada.  Josephine bem que gostaria de ficar s. Mas no podia ser grosseira com Justin que, afinal, estava se mostrando to prestativo. Por isso ofereceu:  Por que no se senta um pouco? Posso preparar um caf, ou um ch.
 Que tal um drinque?  ele sugeriu, acomodando-se no sof maior.
 A esta hora da manh?  ela surpreendeu-se.
 Por que no?  Justin retrucou.
 Est bem.  Caminhando at a estante, Josephine abriu uma pequena porta, na parte inferior, onde guardava as poucas garrafas de bebida que possua.  No tenho o hbito de beber, Justin. Por isso, s posso lhe oferecer um usque, ou um martni. A menos que prefira um copo de vinho.
 Um usque estar bem.
 Com gelo?
 No. Vou beb-o  moda texana.
 Est bem.  Com licena. Josephine afastou-se pelo corredor, em direo  cozinha. Voltou logo depois, trazendo um copo de cristal, que pertencera  sua me. Serviu a bebida e foi sentar-se em frente a Justin.  Aqui est.
 Voc no me acompanha?  ele perguntou.
 Oh, de modo algum. J no sou muito amiga de lcool, sabe? E no meu estado, prefiro me preservar.
Justin assentiu com um gesto de cabea, antes de sugerir:
 Ao menos tome outra coisa. Assim, no beberei sozinho.
 Certo.
Mais uma vez, Josephine foi at a cozinha e voltou, com um grande copo multifacetado entre as mos.
 O que  isso?  Justin perguntou.
 Iogurte com mel  ela respondeu, antes de sorver um gole.  E bastante saudvel.
 E no combina, em nada, com usque  Justin comentou, sorrindo.
 Oh, certamente no.  Ela sorriu de volta. Justin sorveu o drinque em poucos instantes.
 Importa-se se eu repetir?
 Lgico que no  Josephine respondeu, fazendo meno de levantar-se.
 Pode deixar, eu mesmo me sirvo.
Boquiaberta, ela observou Justin encher o copo de cristal. E seu espanto transformou-se em apreenso, quando ele anunciou que tomaria um ltimo drinque, antes de sair.
 Ser que no est exagerando, Justin?  perguntou, preocupada.  Que eu me lembre, voc no costumava beber.
 Estou fazendo isso para ver se crio coragem.  Foi a resposta dbia que ele deu, enquanto voltava a sentar-se... Desta vez, na poltrona ao lado de Josephine.
 Coragem para qu?  ela indagou, inocentemente.
 De me declarar a voc.
 Que conversa  essa, Justin?  Josephine reagiu, interrompendo o gesto de levar aos lbios o copo de iogurte.
  a pura verdade, querida. Continuo atrado por voc, sabe? Sinto que no conclumos nosso relacionamento, como deveramos. E gostaria de...
 Pare com isso, por favor  Josephine ordenou, aborrecida.  No estou disponvel a nenhum tipo de relacionamento, entendeu?
Justin fitou-a com ar intrigado e ento perguntou:
 Voc pretende se casar com o pai da criana?
 No.
 Ento, qual  o problema?
 O problema  que no me sinto atrada por voc.
 Oh, isso passar...  Colocando o copo j vazio sobre a mesinha de centro, Justin tocou-lhe os cabelos ruivos e lisos, que caam-lhe  altura dos ombros.  Basta que voc me deixe mostrar como posso ser carinhoso... e sensual.
 J chega.  Josephine levantou-se, com uma expresso severa.  Agradeo sua gentileza de me trazer at aqui, mas agora, se no se importa, gostaria de ficar sozinha.
Os efeitos do lcool j se mostravam nos olhos turvos de Justin e em seus gestos lentos, ao erguer-se.
 Prometa ao menos que vai pensar sobre o assunto  ele insistiu.
 No tenho nada a pensar ou a dizer, exceto uma coisa: se voc arnda alimenta algum tipo de iluso a meu respeito, esquea.  De sbito, uma idia ocorreu a Josephine:  Pensando bem, creio que voc est equivocado.
 Como assim, doura?
 Voc no se sente atrado por mim, Justin. Apenas, considera-me uma espcie de trofu no conquistado. Por isso, quer ter relaes comigo... para provar a si mesmo que continua sendo um vencedor, o homem que conquista todos os seus objetivos.
 Isso no  verdade, querida.  A voz de Justin soava um tanto pastosa.  Eu a considero realmente como algum especial, juro!
 Est bem.  Josephine compreendeu que seria impossvel discutir o assunto, sobretudo com Justin naquele estado.  Agora pare com essas tolices e aguarde um momento, enquanto chamo um txi.
 No preciso de um txi.  Com passos tropegos, ele foi novamente at a estante e serviu-se de uma nova dose, dessa vez um pouco menor do que as anteriores.  Vim com meu Mercedes, lembra-se?
 Perfeitamente, Justin. Mas voc no est em condies de dirigir. V para casa de txi e depois volte para busc-lo, ou pea a algum para faz-lo. Descanse e trate de se curar dessa bebedeira-relmpago, sim? Ligarei para a empresa, avisando que voc no ir trabalhar hoje.
 De jeito nenhum  ele recusou o oferecimento, com a obstinao prpria das pessoas alcoolizadas.  Vou dirigindo e...
 Voc no ir a lugar algum.  Josephine segurou-o pelo brao, compreendendo, tarde demais, que. acabava de cometer um grave erro.
Aproveitando-se de sua proximidade, Justin abraou-a e tentou beij-la.
 Pare com isso!  ela ordenou.  Estou comeando a perder a pacincia com voc, Justin. Sente-se a e pelo amor de Deus fique quieto, enquanto ligo para o ponto de txi.
Ele obedeceu, deixando-se cair pesadamente no sof de trs lugares.
 Santo Deus  Josephine murmurou, caminhando at a mesinha de canto, onde ficava o telefone.  Nunca vi ningum ficar bbedo em to pouco tempo.
Estava teclando o nmero do ponto de txi, quando a campainha soou.
Quem poderia ser, ela se perguntou, colocando o fone no gancho e caminhando at a porta.
De passagem, viu Justin estirando-se desajeitadamente no sof, que por sinal era pequeno demais para ele.
Ao abrir a porta, Josephine recuou um passo. Poderia esperar qualquer pessoa no mundo, menos... Alexander Rafferty.
 Voc!  disse, numa exclamao abafada, enquanto seu corao se acelerava.
Em qualquer outra circunstncia, teria adorado rever Alexander. Afinal, j fazia quase dez dias que ele partira para Paris, a fim de participar de uma congresso sobre Direitos Humanos. Um famoso jornal parisiense contratara-o, para escrever sobre o evento, que tivera a durao de sete dias.
Depois da conversa sria que tivera com ele, em East Anglia, Josephine o vira por vrias vezes, em Londres.
Aps o choque e as cobranas iniciais, ambos haviam finalmente entrado num entendimento. De comum acordo, tinham decidido que fariam de tudo pelo bem-estar do beb. E Josephine sentira seu corao inundar-se de alvio. Aquele era o Alexander que ela to bem conhecia: amigo, companheiro, solidrio, carinhoso... E algo mais.
Porm, esse algo mais era um ponto no qual ela preferia no tocar, nem pensar. No fundo do corao, compreendia que Alexander deixara de ser apenas o seu melhor amigo. Que de algum modo ele se insinuara em seu afeto, fazendo-a desejar coisas que iam bem alm da simples amizade.
Mas Josephine no sabia o que fazer com aquele sentimento, que era apenas um broto, um incio de algo que poderia se tornar profundo e eterno. Assim, deixava-o crescer em seu corao. Mas tinha plena conscincia de que Alexander no a amava... Exceto como amiga.
Sabia, tambm, que poderia confiar nele. Para que pedir mais?
 Vim direto do aeroporto para c.  A voz grave e pausada de Alexander interrompeu-lhe os pensamentos, trazendo-a ao momento presente.
 E onde est sua bagagem?
 Deixei no carro.
 Mas voc no foi de carro para Paris  ela argumentou, sentindo-se uma grande tola. Sua mente trabalhava rpido, procurando uma explicao para a cena que Alexander veria, dentro de bem poucos segundos: Justin Wood, bbedo, no sof de sua sala de estar!
 Claro que no fui de carro, ora. Mas deixei meu BMW no estacionamento do aeroporto, como todo mundo faz.  Ele fitou-a com estranheza.  O que h com voc, Josephine? No est contente por me ver?
 Oh, naturalmente.  Josephine forou um sorriso.
 Ah, agora est melhor.  Alexander sorriu, daquele modo especial, que parecia iluminar todo o ambiente em torno. Retirando uma pequenina caixa do bolso do blazer marrom, que combinava perfeitamente com a cala de algodo bege e a camisa branca, anunciou:  Trouxe-lhe isto.  E entregou-lhe o presente.
Josephine abriu a caixinha e deparou com duas correntes, finssimas, de ouro, cada uma delas com um pingente em forma de gota, tambm de ouro.
 Na verdade, trata-se de um presente para ns trs Alexander explicou, apontando-lhe o ventre.
 Para mim, para voc e para o beb. J estou usando o meu, veja.  E mostrou, no pescoo, uma correntinha e um pingente idnticos, com o nome Josephine gravado.  A sua  esta  disse, apontando uma correntinha com o nome Alexander.  E a dele, ou dela,  esta:  E tocou a segunda correntinha, com os nomes Alexander e Josephine gravados.
 Ora...  Josephine agora sorria de verdade, tomada por uma forte emoo.
 Trata-se de um jogo de trs correntinhas, unindo trs pessoas. A minha, j tem o seu nome. Depois, ter o dele, ou dela... A sua, que j tem o meu nome, ter depois o dele, ou dela. Entende?
 E o dele, ou dela, j tem os nossos dois nomes gravados  Josephine concluiu, maravilhada.  Que presente lindo, Alexander!
Ele fitou-a com intensidade e, num gesto delicado, tocou-lhe o ventre.
 Eu estava com saudade de vocs, sabia?
 E ns tambm.  Ela cobriu, por um instante, a mo de Alexander com a sua. E desejou que aquele momento durasse para sempre.
 Vocs tm se sentido bem?  ele perguntou, num tom carinhoso.
 Oh, estamos timos. E quanto a voc, Alexander? Como foi o congresso l em Paris?
 Cheio de novidades e boas trocas de infor maes, entre entidades que lutam pelos direitos humanos, no mundo. Confio em suas boas intenes, mas no sei se conseguiro, dos governos, o apoio de que tanto necessitam.  Ele fez uma pausa e tornou a sorrir.  Voc pretende me deixar aqui, em p, contando minha viagem a Paris? Ser que no mereo ao menos entrar e tomar um copo de gua?
Josephine sobressaltou-se. Por alguns momentos, havia at se esquecido da presena de Justin, na sala.
 Sabe o que , Alexander...  Ela procurava ganhar tempo, mas no conseguia encontrar uma maneira de faz-lo.
 Sim?  Antes que Josephine respondesse, ele comentou:  A propsito, liguei para a MacGrew & Bartnett. Achei que voc estivesse trabalhando, mas...
 Fui demitida  ela apartou.
 Como?  ele reagiu, espantado.  Mas por qu?
 Por estar grvida,  lgico. Naturalmente, no foi isso que meu chefe alegou. Mas o motivo est mais do que claro.
 Voc pode process-lo, se quiser. Tenho certeza de que qualquer juiz, com um mnimo de sensatez, lhe dar ganho de causa. E obrigar Stanley Bartnett a readmiti-la, alm de pagar todos os seus direitos.
 Isso ele vai pagar. At quis dar-me uma gratificao, mas no aceitei.
 Fez muito bem. Se ele pretendia compr-la, enganou-se redondamente.
 Que bom que voc pensa assim, Alexander.  Josephine o fitou com admirao.  s vezes me sinto muito sozinha, com meus valores ticos e morais que andam to fora de moda, atualmente.
 O mundo est num momento difcil... As pessoas prezam mais os interesses econmicos e polticos, do que os verdadeiros valores humanos. Cabe a ns, que os temos e cultivamos, firmar cada vez mais nossa posio. Algum dia eles voltaro a ter fora no ntimo das pessoas. E ento o mundo ser melhor.
 Sbias palavras, Alexander Rafferty.
 Elas apenas expressam o que sinto, Josephine Smith.
 Por isso mesmo, so to belas e fortes. 
Alexander ficou pensativo por alguns instantes.
 Acho que voc deve processar aquele crpula.
 Tambm acho, mas no o farei. Afinal, como seria meu clima de trabalho com Stanley Bartnett, se ele fosse obrigado a me readmitir?
 Pssimo.
 Exato. E eu detesto climas, sabe? Portanto, s quero meus direitos. Quanto a isso, no terei problemas.
 Se voc decidiu assim, quem sou eu para contest-la? Tenho apenas uma reclamao a fazer...
 Qual?
 Se no me convidar para entrar, comearei a me perguntar que tipo de monstro voc estar escondendo a dentro...
A voz de Alexander tinha um tom de brincadeira, Josephine constatou. Mas mal sabia ele o quanto estava prximo da verdade...
 Oh,  claro que o convidarei a entrar. Mas estive pensando se...  Ela procurava raciocinar com rapidez, para evitar a situao constrangedora que certamente se estabeleceria, caso Alexander deparasse com Justin, embriagado, no sof da sala.
"Se conseguir fazer com que Alexander se ausente por alguns minutos, darei um jeito de chamar um txi para levar Justin embora", ela pensou. "E isso resolver o assunto."
 Por que est gaguejando, Josephine?  ele indagou, intrigado.
  que... Bem, eu... achei que seria uma boa idia se voc fosse at a padaria comprar alguns croissants. Assim, poderamos tomar um lanche. O que acha?
Alexander fitou-a com espanto:
 Pensei que voc no gostasse de croissants.
Josephine embaraou-se ainda mais. Realmente, nunca fora muito afeita quele tipo de po, originrio da Frana. Mas saiu-se melhor do que esperava, ao justificar:
 Como voc acaba de voltar de Paris, achei que gostaria de saborear alguns. Alm do mais,  natural que uma mulher no meu estado sinta desejo de comer coisas diferentes.
 Bem, isso faz sentido  Alexander concordou, pensativo.
Demonstrando uma calma que estava longe de possuir, Josephine gracejou:
 Ento, o que est esperando? V providenciar os croissants, enquanto preparo um caf para ns.
 Est bem. Quer mais alguma coisa da padaria?
 Da padaria, exatamente, no. Mas talvez voc pudesse buscar alguns doces gelados, na Confeitaria Stollen.
 Imagino que voc esteja com desejo de sabore-los, tambm.
 Sim  Josephine mentiu, mais uma vez.  Acordei com uma vontade de comer torta de amndoas... E tambm aquelas pirmides de chocolate, do tipo que s o pessoal da Stollen sabe preparar.
 A Stollen no fica muito perto daqui  Alexander comentou.
 Eu sei, mas j que voc est de carro...
 Tudo bem  ele assentiu. Com um sorriso, acrescentou:  Espero que no esteja com vontade de comer morangos, Josephine... Afinal, ainda  vero e eu no saberia onde encontr-los.
 No se preocupe  ela retrucou, no mesmo tom.  Meus desejos no so to complicados assim.
 timo. Bem, vou trazer meia dzia de croissants, alm dos dois doces que voc encomendou. Mais alguma coisa, ou isso  tudo, Josephine?
Antes que ela respondesse, o som de um ronco profundo veio do interior da casa.
 O que foi isso?  Alexander indagou, espantado.
 Isso... o qu?  Josephine empalideceu.
 Tive a impresso de ouvir um...
Alexander no chegou a completar a frase, pois novamente o ronco se fez ouvir, dessa vez de maneira inequvoca.
 Alexander...  Josephine quis dizer algo, explicar em apenas alguns segundos o que estava tentando evitar h vrios minutos.  Eu...
 O que  isso?  Ele sobressaltou-se. E concluiu, no instante seguinte:  H mais algum a dentro.
Josephine fechou a mo direita com fora, ocultando a caixinha que continha as correntes e pingentes que Alexander havia trazido.
No deveria ter aceito o oferecimento de Justin, pensou, enquanto dava passagem a Alexander:
 Entre, por favor.
Foi o suficiente para faz-lo precipitar-se para dentro do apartamento. Transpondo o pequeno hall em poucos segundos, saiu na sala e deparou com Justin, que dormia profundamente, quase caindo do sof.
 O que esse cretino est fazendo aqui?
 Vamos at a cozinha, Alexander. Eu posso explicar.

CAPTULO V

Josephine estava comeando a se desesperar.
J havia explicado, repetidas vezes, o que acontecera. Tinha contado tudo, excetuando apenas a cantada que Justin lhe dera. Agia assim apenas para no deixar Alexander ainda mais furioso.
Claro que Alexander no tinha motivos para sentir-se enciumado, ela pensou. Afinal, ele no estava apaixonado, nem tampouco a amava como... mulher.
A raiva de Alexander era perfeitamente explicvel, ela concluiu: ele estava furioso com a presena de Justin, simplesmente porque este a magoara, no passado. E Alexander com certeza queria evitar que ela se ferisse pela segunda vez... S podia ser isso. Caso contrrio, no ficaria to irritado.
Confiante em sua linha de pensamento, Josephine procurou tranquiliz-lo:
 Escute, voc no precisa se preocupar tanto, comigo. No sou mais a garota ingnua, de antes. E no corro o menor risco de apaixonar-me por Justin, novamente. Alis, pensando bem, creio que jamais o amei de verdade.
 Voc s faltou morrer por causa daquele idiota  Alexander resmungou.  Que histria  essa de... "jamais o amei de verdade"?  contestou-a, arremedando-a.
  isso mesmo  ela replicou.  Fiquei encantada por Justin, por algum tempo, mas tudo no passou de mera empolgao. Hoje sei que a verdadeira paixo, que pode conduzir ao amor,  algo bem diferente.
 E o que lhe deu esta certeza?  ele a desafiou.
Josephine no podia responder  pergunta. Se o
fizesse, denunciaria o que vinha sentindo por aquele homem, desde a conversa que haviam tido, em East Anglia.
 Ser que voc no tentou conferir, uma vez mais, o que sentia por Justin Wood? Ser que no o convidou para dormir aqui, ontem, e agora est inventando um monte de mentiras, para...
 Que idia mais absurda!  ela o interrompeu, chocada.  Por que eu faria isso, Alexander?
 No sei  ele respondeu, sarcstico.  Parece que as mulheres grvidas tm estranhos desejos, no?
 Desejos de sabores... Nada a ver com praticar atos dos quais se arrependero, depois.
 Quer dizer ento que voc est arrependida por ter convidado Justin para vir a sua casa?  ele indagou, num tom provocativo.
 Eu no o convidei  Josephine declarou, com veemncia.  Apenas, aceitei o oferecimento dele para...
 Ora, pare de repetir esta mentira  Alexander a interrompeu.
Estavam ambos parados, frente  frente, ao lado da mesa da cozinha, circundada por quatro cadeiras.
Josephine sentiu-se empalidecer ainda mais. Era como se o sangue lhe fugisse do rosto, deixando-a to branca quanto a toalha de linho que cobria a mesa.
 No estou mentindo, Alexander Rafferty  disse, por entre os dentes, enquanto a indignao cres-cia-lhe no ntimo.  Mesmo porque, no tenho motivos para tanto.
 Ento, como  que aquele cretino veio parar aqui?
 Eu j lhe disse!
 E quer que eu acredite que, em cinco minutos, ele conseguiu se embebedar o suficiente para roncar como um urso em estado de hibernao?!  Alexander retrucou, com a voz trmula de raiva.  Julga-me to idiota assim, Josephine Smith?
 No, Alexander Rafferty.  Ela suspirou, tomada por uma onda de total desalento.  Julgo-o um homem inteligente e, para ser sincera, no estou entendendo sua reao  presena de Justin.
 No se faa de inocente. Voc sabia muito bem que eu reagiria assim. Caso contrrio, no teria tentado desvencilhar-se de mim, como fez.
 Eu...
Ignorando-a, ele continuou a question-la, duramente:
 O que voc pretendia, afinal? Fazer com que Justin acordasse e partisse, antes que eu voltasse da padaria?  Levando a mo  testa, concluiu:  Agora me lembro... Voc me mandou at a Confeitaria Stollen, para ganhar mais tempo. Assim, as chances de Justin despertar e ir embora seriam maiores.
 Alexander, voc no est entendendo  ela insistiu exasperada.  Vou explicar tudo de novo e...
 No  necessrio  ele aparteou, num tom cortante.  J compreendi perfeitamente o que houve...  Eu s queria poup-lo de um aborrecimento, Alexander. Por isso inventei aquela histria sobre os croissants e os doces da Stollen. Mas no pensei que voc fosse ficar to furioso...
 Furioso?  ele repetiu, com um sorriso amargo.  Estou chocado, isso sim! Sou seu amigo h tanto tempo e, at hoje, acreditava conhec-la razoavelmente bem. Mas nunca imaginei que voc tivesse vocao para atriz.
 Alexander, por favor, quer parar de fazer mau juzo a meu respeito?
 Voc  hipcrita, Josephine  ele sentenciou, com uma expresso de horror.  Como pde... Por que ficou mentindo para mim, tentando impedir-me de entrar?
 J disse que queria poup-lo desse aborrecimento. Mas agora vejo o quanto fui tola. Deveria t-lo deixado entrar ...
 Voc certamente faria isso, se estivesse com a conscincia tranquila.
 Eu estou!  Josephine sentenciou, elevando a voz.
 No  preciso gritar, Josephine. Mesmo porque, isso no anularia mais esta mentira.  Ele meneou a cabea, fitando-a com um misto de tristeza e desprezo.  Seria to simples dizer: "Ol, Alexander, imagine s quem est bbado, ali no sof da sala... Justin Wood! Fui demitida e ele resolveu me dar uma carona at em casa. Da ofereci-lhe um drinque e ele embriagou-se. Naturalmente, Justin no pode dirigir, neste estado. Voc se importaria de lev-lo para casa?"  Alexander fez uma pausa, antes de repetir:  Seria simples, no, Josephine? Mas no foi isso que aconteceu.
 Eu seria capaz de falar exatamente assim, fitando-o nos olhos  ela defendeu-se.  Apenas, no me ocorreria pedir a voc que o levasse para casa.
 Por que no? Por medo de que Justin, apesar de embriagado, me contasse o que ocorreu entre vocs?
Aquilo era demais, Josephine decidiu, em pensamento. E resolveu pr um fim  conversa:
 Basta, Alexander. J disse e repeti a verdade, at a exausto. Agora, cabe a voc acreditar ou duvidar de mim. Mas no aceitarei que me desacate, ou que faa insinuaes maldosas a respeito de minha atitude com Justin.
Por um instante, ele pareceu hesitar. Mas ento reassumiu a postura provocativa, acusando-a duramente:
 No venha bancar a indignada, Josephine Smith. Voc mentiu para mim, tentou livrar-se de minha presena e ainda por cima quer me dar lio de moral?! Francamente!
 Pense o que quiser  ela retrucou, com ar de derrota.  Eu desisto de faz-lo acreditar em mim.
 Mesmo porque, isso seria impossvel.
 Ora, pare com essas provocaes que, afinal, no levaro a nada. S serviro para nos tensionar ainda mais, gerando novos mal-entendidos.
 E por falar em gerar, voc precisa se poupar um pouco, no  mesmo?  A voz de Alexander soava mais branda, agora.  Que pena, Josephine... Achei que poderamos passar horas agradveis, juntos. Eu... tinha tanto a lhe contar, sobre minha viagem  Paris.
 Eu tambm gostaria muito de conversar com voc, Alexander, sobre umas idias que me ocorreram a respeito de...
 Mas, infelizmente, isso no ser possvel  ele continuou, ignorando-lhe o aparte.  Bem, nem tudo o que a gente deseja  vivel. Sobretudo quando colocamos expectativas sobre outras pessoas que, alis, nem merecem nossa confiana.
 J chega de acusaes, por favor  ela pediu, contendo a custo a vontade de chorar.  Voc est me magoando.
 Estou, ? Bem, este seria um modo de devolver-lhe a dor que senti, agora h pouco, ao descobrir suas mentiras. Mas felizmente no sou um homem vingativo. Tenho l meus defeitos, mas este no faz parte da lista. At qualquer dia, Josephine. Ligue-me quando estiver disponvel para conversar.
 Alexander, voc deveria acreditar em mim.
 Bem que eu gostaria, mas depois de todas essas evidncias...
 As aparncias enganam, sabia?  Josephine fitou-o no fundo dos olhos.
A expresso de Alexander era to triste, que ela se compadeceu.
 Ainda temos algo em comum.  Ele apontou-lhe o ventre, que comeava a se arredondar sob o vestido de malha azul-claro.  Ou, melhor dizendo, algum em comum.  E, sem mais uma palavra, saiu em direo ao corredor que conduzia  sala. Atravessou-a e seguiu pelo hall, rumo  porta de sada.
Josephine ainda tentou det-lo, mas Alexander nem sequer voltou-se para fit-la. Tampouco havia olhado para Justin, que continuava dormindo no sof, alheio ao problema que causara.
Assim que Alexander saiu, fechando a porta, Josephine deu vazo ao choro que at o momento tentara conter.
Correndo para o quarto, atirou-se na cama e chorou por um bom tempo, perguntando-se por que o destino, s vezes, preparava aquele tipo de armadilhas.
No fundo, podia compreender a posio de Alexander que, afinal, tinha muitas razes de sobra para sentir-se indignado.
 Droga  murmurou, entre as lgrimas.  No fim das contas, a grande idiota fui eu.
Pois, pensando bem, fora uma grande tolice tentar evitar que Alexander visse Justin, na sala.
Melhor seria t-lo deixado entrar, logo de incio. Mas s agira daquele modo porque sabia o quanto Alexander detestava Justin... E detestava-opor ela... Por saber que Justin a magoara muito, no passado.
Agora, o mal-entendido estava feito. E Josephine no sabia como agir, para resolver aquela situao absurda.
Talvez fosse melhor dar tempo ao tempo. Mas, at l, como suportar o desprezo de Alexander?
Em meio a tantos pensamentos perturbadores, Josephine adormeceu. No tinha idia do quanto estava exausta e desgastada, emocionalmente.
Acordou uma hora depois, com a ntida impresso de que no estava sozinha.
Virando-se na cama, deparou com Justin que, parado junto  porta, observava-a com uma expresso um tanto confusa.
 Desculpe-me por acord-la. Mas gostaria de saber o que aconteceu.
 Oh, eu tambm  Josephine murmurou, sonolenta.  O que est fazendo aqui, Justin?  E antes que ele respondesse, compreendeu:  Agora me lembro. Voc ficou bbedo e...
 Essa parte eu j sei  ele a interrompeu, levando ambas as mos s tmporas.  Minha cabea est estourando. S gostaria que voc me dissesse como foi que desmaiei em seu sof.
 Boa pergunta.  Josephine suspirou profundamente e sentou-se na beira da cama.  Na verdade, nem eu mesma entendi como foi que voc conseguiu embriagar-se, numa questo de minutos. Mas foi exatamente isso que aconteceu: voc tomou algumas doses de usque e apagou.
 S isso?  Justin indagou, franzindo a testa.
 Sim.
 No houve mais nada?
 No.
 Posso fazer uma pergunta?
 Voc j est fazendo vrias. V em frente, Justin.
 Por acaso fui... inconveniente com voc?
Josephine hesitou por um instante, antes de indagar:
 Voc quer a verdade?
 Lgico que sim.
 Ento... foi.
 Oh, Deus.  Justin parecia arrasado, Josephine concluiu, penalizada. A petulncia, que sempre o caracterizava, havia desaparecido de seu semblante.
Ele parecia simplesmente um homem cansado, triste e sem grandes atrativos. Os cabelos em desalinho, a camisa de seda amarrotada, os olhos azuis-cinzentos congestionados... Tudo em Justin denotava cansao, solido, derrotismo.
Josephine jamais imaginara que algum dia o veria naquele estado. Por um momento, pensou em contar a Justin o mal-entendido que sua presena havia provocado. Mas desistiu. Isso s contribuiria para deix-lo num estado ainda mais lamentvel. Esquecendo-se do prprio sofrimento, sugeriu:
 Por que voc no esquece o que aconteceu? V tomar um banho, se quiser. Assim se sentir melhor.
 Ser difcil... Mas agradeo seu oferecimento.  Ele passou a mo pelo rosto.  Quero apenas me recompor um pouco. Posso usar o banheiro?
 O quarto ao lado  uma sute idntica a esta. Fique  vontade, Justin.
 Obrigado.
Ele saiu e Josephine aproveitou para recompor-se, tambm.
"Uma ducha rpida", ela decidiu, em pensamento. " disso que preciso."
Dez minutos sob o forte jato de gua morna a deixaram revigorada... ao menos fisicamente, pois, emocionalmente, continuava arrasada.
Depois, Josephine parou em frente ao guarda-roupa, perguntando-se o que deveria vestir.
Na verdade, estava pouco se importando com roupas, no momento. Mas teria de despedir-se de Justin. Por isso no poderia simplesmente vestir um roupo, ou uma camiseta velha, com uma bermuda.
O vero ia pelo meio, o cu estava azul e lmpido.
Josephine optou por uma camiseta vermelha, larga, jeans e sapatilhas chinesas, estilo boneca.
Penteou os cabelos, deixando-os soltos, passou um creme hidratante no rosto e foi at a sala.
Justin a aguardava, sentado numa poltrona.
 Nossa!  Josephine exclamou, surpresa. E gracejou:  Voc nem de longe se parece com aquele espantalho que ainda h pouco estava parado na porta do meu quarto.
 Devo tomar isso como um elogio?  ele indagou, j totalmente refeito. Era de novo o Justin Wood, reservado e um tanto frio, que ela conhecia. Levantando-se, estendeu-lhe a mo, num cumprimento cordial:  J vou indo, Josephine. Descul-pe-me pelo inconveniente, sim? Estou francamente mortificado por ter agido como um idiota.
 Todos ns cometemos bobagens, de vez em quando  ela contemporizou.
 Bobagens... v l. Mas o que fiz  inadmissvel. S gostaria de saber por que agi assim.
Josephine fitou-o com seriedade:
 s vezes exigimos demais de ns mesmos. Ignoramos as tenses, os desejos ou inquietaes que nos habitam. Da, quando menos esperamos, tudo isso vem  tona, tirando-nos do eixo, roubando-nos o autocontrole.
 Voc acha que foi este o caso?
 O mais poderia ser? Voc  um homem absolutamente controlado, Justin. Todas as suas atitudes, posturas e comentrios so previamente calculados. Assim, sobra muito pouco espao para a espontaneidade...
 Da, basta-me ingerir algumas doses a mais, para assediar uma ex-namorada  ele concluiu, baixando os olhos.  Imperdovel, Josephine. Isso  simplesmente imperdovel.
 Em vez de ser to rgido consigo mesmo, por que no tenta viver de modo mais descontrado?
 E por que eu faria isso?  Justin indagou, intrigado.
 Ora, porque...  Josephine fez um gesto vago.
 Porque se voc exercitar mais sua espontaneidade, no sero algumas doses de lcool que o tiraro do controle.
 Pois saiba que farei justamente o oposto.
 Como assim?  ela indagou, sem entender.
 Vou aprimorar ainda mais meu autocontrole. Assim, jamais o perderei novamente.
 Os seres humanos no so mquinas, Justin. No  de controle que voc precisa e sim de descontrao.
 Voc est enganada, Josephine.
 Ser mesmo?
 Pode apostar que sim. Desculpe-me uma vez mais, por favor.
 Est desculpado.  Ela o acompanhou at a porta.  Voc... sente-se em condies de dirigir?
 Perfeitamente. No se preocupe. A propsito, voc ficar bem?
Josephine interrompeu o gesto de abrir a porta e fitou-o com infinita tristeza: -
 Quer saber a verdade?
 Ora, que mania de indagar se quero a verdade. E lgico que sim! Caso contrrio, no teria feito a pergunta.
 No  disse Josephine.
 Como?
 No ficarei bem  ela explicou.
 Por qu? Est sentindo alguma dor, ou incmodo?
 Sinto uma dor aqui.  Josephine tocou o peito, na altura do corao.
 Est com taquicardia, Josephine? Ou talvez sua presso tenha cado e...
 Acorde, Justin!  ela o advertiu, sorrindo em meio  tristeza.  Estou falando do corao, no sentido simblico. Em outras palavras, sinto-me arrasada, entendeu?
Ele fitou-a por um longo momento, como se buscasse uma compreenso difcil de ser atingida. Por fim, perguntou:
 E voc est se sentindo assim por causa do que aconteceu? Quero dizer, devido  minha atitude inconveniente?
 Responder sim... ou no, seria igualmente injusto.
 Essa eu no entendi. Voc no poderia falar mais claro?
 Est bem, Justin. Eu vou explicar.
Em poucas palavras, Josephine contou sobre a chegada de Alexander e do terrvel mal-entendido que havia se estabelecido entre ambos.
 Santo Deus!  ele exclamou, horrorizado, no final da narrativa.  A essa altura, seu amigo Alexander deve estar pensando que sou um crpula ou, no mnimo, uma manaco sexual.
 Nem tanto. Na verdade, ele s est pensando que houve algo entre ns dois... Algo que eu no quis contar. Droga... Tentei impedir que ele entrasse, para evitar uma situao dbia. E criei outra, ainda pior.
Justin refletiu por alguns instantes, antes de dizer:
 Isso  terrivelmente aborrecido. Mas, de uma certa maneira, sinto-me aliviado. Pois sei que no causei um mal-entendido irremedivel.
 Ser que no?
 Estou certo disso. E sabe por qu?
 Nem imagino.
 Porque voc e Alexander so amigos. E amigos so como irmos. Brigam hoje, fazem as pazes amanh. Tenho certeza de que tudo ficar bem, entre vocs. Difcil seria se Alexander fosse seu namorado... A sim, a situao se tornaria realmente grave.
Josephine engoliu em seco. De fato, Alexander no era seu namorado. Mas agira como se fosse, devido  indignao que sentira, ao flagr-la mentindo.
Pior ainda fora sua atitude: ela agira como uma garota assustada, que quisesse convencer o namorado ciumento de sua inocncia.
 Est tudo errado  disse, como se para si.  Por que essas coisas acontecem justamente comigo?
  isso que dizem todas as pessoas que se sentem vtimas de um mal-entendido.  Justin fez uma pausa.  Eu... sinto muito, Josephine. Quer que eu ligue para seu amigo Alexander, retratando-me e pedindo desculpas?
Josephine considerou o oferecimento, mas por fim resolveu recus-lo:
 Obrigada, mas acho que conseguirei resolver a situao por mim mesma  afirmou, com uma convico que estava longe de sentir.
 Ento, eu j vou indo. Posso fazer uma ltima pergunta, Josephine?
 Claro.
 Por acaso seu amigo Alexander no acha que sou o pai da criana que voc espera... Ou ser que acha?
 Como poderia, Justin, se ele mesmo  o pai? Justin reagiu, perplexo:
 Quer dizer que seu amigo Alexander  o pai do beb?
 Exato. Algum problema, Justin?
 Oh, no. Apenas... espanto, doura. Mas isso passa. At qualquer dia, sim?
 At, Justin.
Josephine fechou a porta e apoiou-se contra ela, fechando os olhos por um instante.
De sbito, tinha a ntida impresso de que sua vida havia virado de cabea para baixo. Precisava fazer alguma coisa, para mudar aquela situao.
Caminhando at a cozinha, Josephine serviu-se de um copo de leite, pensando que deveria providenciar um almoo rpido.
Foi ento que seus olhos pousaram sobre a minscula caixa, contendo as correntinhas e os pingentes, que estava sobre a mesa redonda. Ela mesma a havia colocado ali, durante a dura conversa com Alexander.
 Nem tudo est perdido  murmurou, tocando o ventre, como se acariciasse a nova vida que ali se formava, dia aps dia, hora aps hora, segundo aps segundo, cumprindo o mgico ciclo da existncia humana.  Ainda tenho voc, meu filhinho, e uma boa perspectiva de sobreviver, trabalhando por conta prpria. Portanto, no posso reclamar.
Mas o fato era que a vida sem Alexander parecia um tanto... desprovida de sentido.
Obedecendo a um impulso, Josephine aproximou-se da extenso do telefone, que pendia da parede, e discou o nmero da casa de Alexander.
Aps quatro toques, reconheceu a voz grave e pausada, gravada numa secretria eletrnica:
 Voc ligou para Alexander Rafferty. Deixe seu recado aps o sinal do bip.
 Por favor, ligue para mim  disse Josephine, no tom mais calmo que conseguiu.  Preciso falar com voc.  E esperou, durante o dia inteiro, que Alexander retornasse a ligao. Mas isso no aconteceu.
O silncio de Alexander, embora Josephine relutasse em admitir, era um sinal inequvoco: ele no queria v-la. A estava uma verdade absoluta, mas muito difcil de aceitar.
 Ele no te quer, Josephine Smith  ela pensou, em voz alta, enquanto uma pontada de dor quase a fazia dobrar-se.
Tratava-se de uma dor no fsica, mas afetiva, emocional... Algo impalpvel, mas nem por isso menos dilacerante.
Alexander tampouco retornou a ligao, nos dias que se seguiram. E Josephine disse a si mesma que no podia continuar daquele jeito. Acabaria prejudicando a si mesma e ao beb, se no procurasse lutar contra a depresso, que ameaava domin-la.
Certa manh, levantou-se cedo e ps um anncio no jornal, com os seguintes dizeres:
Secretria bilngue faz servios free-lance de traduo, reviso, materiais grficos e pesquisas.
A seguir vinha seu telefone e endereo na Internet.
Trs dias depois, o anncio era publicado.
Por volta de nove horas, o telefone tocou, na casa de Josephine.
"A vem meu primeiro cliente", ela pensou, com alegre expectativa, enquanto atendia  chamada:
 Al?
 Como vai, Josephine?
Ao reconhecer a voz de Alexander, ela sentiu o corao disparar.
 Estou bem, obrigada  respondeu, sem disfarar a alegria de ouvi-lo.  E voc?
 Trabalhando bastante... Liguei para fazer-lhe um convite.
 Faa, Alexander.
 Que tal almoar comigo no Carmen e Gil?
 A que horas?
 Estou pensando em passar por a ao meio-dia, para apanh-la. Este horrio  bom para voc?
 Perfeito. Ficarei aguardando.
 Ento, at daqui a pouco.
At.  Josephine hesitou, antes de dizer:  Alexander?
 Sim.
 Que bom que voc ligou.  E aps uma pausa, indagou:  No recebeu meus recados?
 Sim, mas no pude ligar antes. Diga-me, Josephine, como vo as coisas?
 Tudo corre s mil maravilhas.  "Melhor agora, que voc telefonou", ela acrescentou, em pensamento.
 E quanto ao beb?
 Est aqui, crescendo, preparando-se para chegar a este mundo lindo e um tanto maluco.
Alexander riu:
 Espero que ele se prepare muito bem, mesmo, pois nosso planeta, que  maravilhoso, tem sofrido um bocado com as incoerncias humanas.
 E verdade.
 Por outro lado, as belezas da vida nos do sempre a sensao de que todas as lutas e tristezas valem a pena.
 Tem razo, Alexander. Bem, ns nos veremos daqui a pouco.
 Certamente que sim.
 At j.
 At...
Josephine desligou, sentindo-se inundada por uma onda de felicidade. O mundo voltava a fazer sentido, a vida parecia mais vibrante e dinmica.
E tudo por qu?
Porque Alexander a havia procurado.
Se isso no era amor, ento como se chamaria o sentimento que ela acalentava dentro do peito? Um sentimento que a cada instante se tornava mais intenso e poderoso, infinitamente maior do que qualquer pensamento, qualquer tentativa de sensatez.
Era o amor, Josephine concluiu, com um suspiro. Enfim havia acontecido: ela se apaixonara... Mas justamente pelo melhor amigo?
 Que loucura  murmurou, com um profundo suspiro, a caminho do quarto. Queria escolher uma roupa bem bonita, para encontrar-se com Alexander.

CAPTULO VI

O restaurante Carmen e Gi, especializado em pratos indianos, funcionava num antigo casaro, num bairro nobre de Londres.
Alexander era um frequentador assduo do local e conhecia os proprietrios h vrios anos.
Quando estava em Londres, no perdia a chance de saborear os deliciosos pratos, preparados sob a superviso direta de Carmen. Gostava tambm de ouvir Gi, que por sinal era um exmio flautista, tocar durante o horrio de almoo. Aquela era uma atrao especial do restaurante, que j se tornara famoso na regio.
Josephine havia estado l, algumas vezes, a convite de Alexander. Mas, naquele dia, o local parecia-lhe ainda mais adorvel e aconchegante.
A decorao denotava simplicidade e de bom-gosto. Objetos indianos ocupavam pequenos consoles, colocados ao longo das paredes. Das caixas de som, dispostas em locais estratgicos, vinham os acordes de belas ragas, um gnero de msica oriental, que Josephine apreciava particularmente.
As mesas eram cobertas com toalhas brancas. Havia mesas de tamanho convencional, com cadeiras, e outras, mais baixas, rodeadas por almofadas de cetim.
Alexander e Josephine escolheram uma mesa convencional, num lugar privilegiado, que dava para um pequeno terrao, cheio de plantas.
Carmen ofereceu uma rodada de pastis indianos, por conta da casa. Os pastis foram muito elogiados, e com razo, pois estavam deliciosos.
Em seguida Carmen sugeriu, como prato principal, peixe ao molho de curry, com legumes. Alexander, que apreciava no apenas o sabor, mas o alto valor nutritivo do prato, acatou a sugesto imediatamente. Josephine aprovou e, dali a pouco, ambos degustavam aquela verdadeira obra de arte da cozinha indiana.
No final da refeio, enquanto saboreavam uma xcara de caf, Gi aproximou-se com sua flauta transversa e executou uma bela msica oriental.
 Agora vamos deix-los a ss, para que possam conversar  vontade  disse Carmen, no final da cano. Retirando a mesa, convidou o marido:  Vamos, Gi. Ns os estamos importunando, desde que chegaram.
 De modo algum  Alexander discordou, com um sorriso.   sempre um prazer conversar com vocs.
 O prazer  todo nosso.
Quando Carmen e Gi se afastaram, Josephine e Alexander fitaram-se por um longo momento. Era como se dissessem, com os olhos, o que nenhuma palavra poderia.
 Estou feliz por ter vindo  Josephine declarou, por fim.
 Eu precisava v-la. Como vo vocs?  Alexander indagou, referindo-se, naturalmente, a ela e ao beb.
 Estivemos tristes, nos ltimos dias, devido quele lamentvel mal-entendido.
 No vamos comentar sobre isso, por favor.
 Como voc quiser, Alexander  ela assentiu, docemente.  Mas existe um outro assunto, sobre o qual quero lhe falar.
 Qual?  ele indagou, interessado.
 E sobre minha vida profissional.
 Pensei que tivesse sido demitida.
 E fui. Por isso mesmo, decidi tomar um novo rumo.
 Qual?
Em poucas palavras, Josephine explicou sua resoluo de trabalhar como free-lance.
 Coloquei um anncio no jornal  acrescentou, no final da narrativa.  E estou  espera dos clientes.
 Sabe que voc teve uma tima idia? Com as habilidades que possui, no tardar a encontrar bons trabalhos.
 E ainda por cima no terei de sair de casa, todas as manhs. Vou transformar metade de minha sala num escritrio. Farei uma diviso com um biombo e instalarei meu computador, uma estante e outros materiais necessrios ao trabalho.
 timo. Voc pensou bem, Josephine.
 Que bom que voc aprovou, Alexander.
A conversa derivou para outros assuntos. O clima entre ambos foi se tornando alegre e descontrado. Em pouco tempo, falavam como nos velhos tempos, ou melhor: nos tempos em que eram grandes amigos e trocavam confidncias, sem reservas ou receios.
Josephine sentia-se nas nuvens. Era maravilhoso estar ali, com a pessoa que mais amava, no mundo. Apenas, j no poderia considerar Alexander como um simples amigo. Dia-a-dia, minuto a minuto, ele ia se tornando algum muito caro a seu corao sensvel e romntico.
Como a vida era curiosa e cheia de mistrios. Quando ela poderia imaginar que seu melhor amigo se transformaria, algum dia, no homem que seu corao elegera?
 Voc tem algum compromisso para hoje?  Alexander perguntou, a certa altura.
 Bem, estou esperando o resultado do anncio que pus no jornal.
 Mas voc possui uma secretria eletrnica, no?
 Sim.
 E ela  eficiente?  Alexander gracejou.  Costuma dar os recados direitinho?
 Sim  Josephine respondeu, entrando na brincadeira.  Ela tem uma memria fantstica, sabe?
 Nesse caso, voc no precisar estar em casa, hoje  tarde.
 No...  Josephine respondeu.  Por qu?
 Porque estou pensando em convid-la para passar o resto do dia no Jardim Botnico. O que acha?
  um local adorvel.  E Josephine aceitou o convite.  Vamos?
Pouco depois, ambos saam, depois de despedir-se de Carmen e Gi. O dia estava magnfico. O vero j ia pelo meio. O cu azul, a brisa fresca e agradvel, o clima ameno... tudo parecia propcio a um belo passeio.
Foi uma tarde inesquecvel. Josephine e Alexander no se cansavam de admirar a grande variedade de plantas do Jardim. Depois, conversaram longamente, sentados num tosco banco de pedra,  margem de um lago de guas calmas. Por fim resolveram tomar sorvete, num quiosque, enquanto observavam a bela paisagem em torno.
Um cinturo verde, composto por rvores centenrias, circundava o Jardim Botnico, um dos pontos pitorescos da cidade.
Havia poucas pessoas por ali, quela hora. O movimento costumava ser mais intenso, nos fins de semana e feriados. Mas naquela tera-feira, um dia comum de trabalho, a maioria dos londrinos estava cuidando de suas atividades profissionais e demais afazeres.
Observando algumas crianas que corriam, em alegre algazarra, s margens do lago, Alexander comentou:
 Algum dia nosso filho tambm estar aqui, brincando, crescendo, descobrindo o mundo...
 Sim  Josephine concordou, comovida.
Era bom ouvir Alexander falar nosso filho. Era maravilhoso estar ali, ela pensou, acariciando levemente o ventre, enquanto terminava de saborear seu ltimo bocado de sorvete.
 Vamos dar uma volta pelo bosque?  Alexander sugeriu. Mas antes que ela respondesse, acrescentou:  Voc deve estar cansada. Deixemos o passeio para um outro dia.
 Estamos nos sentindo muito bem  ela afirmou, ainda tocando o ventre.  E adoraramos caminhar por este bosque to bonito.
Havia uma trilha entre as rvores, justamente para que as pessoas pudessem passear, admirando as sequias, carvalhos centenrios e as delicadas flores silvestres que cresciam, rentes ao cho.
Por ali Alexander e Josephine caminharam, por um bom tempo, enlevados com o canto dos pssaros que, nas altas copas, pareciam saudar a bela tarde de vero.
A Josephine pareceu to natural, quando Alexander tomou-lhe a mo... E tambm quando ele, tirando a jaqueta jeans que usava, estendeu-a no cho e sugeriu:
 Vamos descansar um pouco?
Assentindo com um gesto de cabea, ela se sentou.
Alexander acomodou-se a seu lado e ambos ficaram em silncio, como que isolados do mundo ao redor.
 Que tarde magnfica  ela comentou, com um sorriso.  Fazia tempo que eu no me sentia to bem.
Ele aquiesceu com um gesto de cabea, enlaando-a pelos ombros.
No mesmo instante, Josephine sentiu-se invadida por uma onda de calor, que fez seu corao acelerar-se. Se pudesse, prolongaria aquele momento por toda a vida.
 Gostaria de lhe perguntar uma coisa  disse Alexander, com os olhos fixos numa moita de narcisos, que floresciam a poucos metros de distncia.
 Pergunte o que quiser.
 Voc chegou a se arrepender por estar grvida? Quero dizer, no incio, quando descobriu... Desejou que isso jamais tivesse acontecido?
Josephine no hesitou em responder:
 No posso negar que, a princpio, fiquei assustada. Mas arrepender-me... acho que no.
 Quer dizer ento que voc no sente este beb como um... peso... ou algo indesejvel?
 Lgico que no  ela afirmou, com veemncia.  Eu amo este ser que est se formando dentro de mim. Um ser que um dia ser um beb, depois uma criana... um adolescente... um adulto! Meu Deus, como a vida  linda, em seus mistrios.
 Que bom que voc pensa assim.
 Eu sinto assim  ela o corrigiu, num tom suave.
 Ento, voc nunca me odiou por isso? Josephine sorriu. Era incrvel como os homens, to fortes em tantos aspectos, podiam ser infinitamente ingnuos, em outros...
 Voc me perguntou se eu o odiava, na manh seguinte ao nosso ato de amor... Lembra-se disso, Alexander?
 Sim. Eu estava me sentindo culpado por...
 Ter se aproveitado de mim?  Josephine completou, sorrindo.  Bem, espero ter esclarecido esse ponto, quando lhe disse que voc no me forou a nada. Ambos quisemos o que houve entre ns.
 Porque nos deixamos levar pela emoo do momento  ele sentenciou.
 Concordo, mas ningum nos obrigou a fazer aquilo.  Josephine fez uma pausa.  E quanto a voc, Alexander? Como se sente com relao ao beb?
Josephine teria gostado de acrescentar algo 
pergunta:
"Como se sente com relao ao beb... e a mim?" Era assim que deveria ter se expressado, caso
tivesse coragem para tanto.
 Devo confessar que, no comeo, fiquei apavorado. Ser pai era algo que jamais tinha me passado pela cabea. Mesmo porque, voc sabe o que penso sobre o casamento...
 Voc no acredita nele.  Josephine sorriu e continuou:  Isso  surpreendente, devido ao fato de voc ter nascido e se criado num lar onde existe tanto amor. Afinal, seu pai e sua me sempre se deram to bem.
 Que eles se amam no tenho a menor dvida.
 Quer dizer ento que voc no duvida do amor perfeito, do amor eterno?  Josephine perguntou, tomada por uma onda de esperana.
 Claro que no. Apenas, acho que no sou talhado para ele.
 Como assim?  ela indagou, sem entender.
 Trata-se de uma questo de carter, eu suponho. Mame e papai tiveram de fazer muitas concesses, para conseguirem um lar harmnico e feliz.
 Talvez porque acreditassem que valia a pena abrir mo de certos pontos de vista, em funo da felicidade  Josephine opinou.
 Sim. Acho isso admirvel, mas no sou esse tipo de pessoa. Eu no conseguiria abrir mo de minha individualidade, de meu carter, s para conquistar algum, ou para contemporizar um problema domstico. Isso me custaria muito, sabe?
no tenha encontrado a mulher ideal.
 A pessoa ideal no existe, Josephine, exceto em nossos sonhos. J pensou nisso?
 Sim, mas no concordo com sua afirmao.
 Ora, voc mesma j me contou que, desde a adolescncia, espera por seu prncipe encantado.
 Exato.
 Mas ele s existe no seu sonho.
 No... Ele  real  Josephine sentenciou, sem pensar.
 ?  Alexander repetiu, erguendo as sobrancelhas.
Josephine no respondeu e ele insistiu:
 Quer dizer que j existe algum em sua vida? E esse algum no seria... Justin Wood?
Ela fitou-o com uma expresso severa, antes de dizer:
 Vamos deixar uma coisa bem clara, Alexander. A ltima pessoa com quem me relacionei foi voc. E no tenho a menor inteno de manter relaes com outra pessoa, durante a gravidez.
 Mas voc disse que ama algum... no?
Josephine debatia-se diante da gravidade da situao. Se respondesse que no amava ningum, estaria mentindo. Pois uma das poucas certezas que tinha, na vida, era a de que apaixonara-se por aquele homem.
Por outro lado, se respondesse que no amava ningum, estaria mentindo, tambm.
Como deixara-se ficar na berlinda, daquele modo?
 Eu amo, sim.  Ela voltou a tocar o ventre, numa suave carcia, que em nada demonstrava sua inquietao.
 Ah, agora entendi.  Um sorriso estampou-se nos lbios sensuais de Alexander.  Voc estava se referindo ao beb...
Josephine no respondeu, mas ele interpretou seu silncio como sinal de concordncia.
 Ainda bem.
Seria impresso, ou Alexander parecia aliviado?, ela se perguntou.
 Por um momento, pensei que voc estivesse falando de algum homem.
"De voc", Josephine respondeu, em pensamento.
Mas por nada no mundo teria coragem de formular aquelas duas palavras em voz alta... palavras to definitivas!
 Afinal, quando conversamos na casa de meus pais, voc disse que ainda estava esperando por seu prncipe encantado. Como poderia t-lo encontrado, de l para c?
Ela fechou os olhos por um instante, ansiosa para que o rumo da conversa mudasse. Pois talvez no conseguisse continuar disfarando, por muito tempo, o que sentia por aquele homem.
Mas se Josephine j estava inquieta, sentiu-se ainda pior quando Alexander perguntou:
 Lembra-se de que j lhe falei sobre a possibilidade de nos casarmos?
 Sim. E voc deve se recordar de minha resposta, no? Gostaria de saber se voc no mudou de idia.
Josephine arregalou os olhos verdes, numa expresso de espanto.
 Voc enlouqueceu de repente, Alexander?
 Por que tanta surpresa?  ele retrucou, calmamente.
 Ora, porque...  Ela meneou a cabea, fazendo balanar os cabelos ruivos e lisos.  Voc mesmo acaba de declarar, aos quatro ventos, que no foi talhado para o casamento. Que incoerncia, Alexander!
 Mas existem casamentos... e casamentos]
 S acredito num tipo: o que  feito de maneira consciente e por amor.
 E voc j pensou na possibilidade de fazermos isso por amor... ao beb?
Josephine refletiu por alguns instantes, antes de responder:
 J lhe falei sobre isso, Alexander, mas mesmo assim vou repetir. Eu faria qualquer coisa pelo beb. Mas no creio que seria uma boa idia prejudicar minha individualidade, ou a sua, em nome desse amor. Mesmo porque, o beb no precisar disso. Ele ser amado por ns dois, independente do fato de sermos casados, ou no. Achei que houvesse deixado isso bem claro, durante a conversa que tivemos, na casa de seu pai.
 Se voc realmente amasse esse algum, creio que faria concesses, sem sofrer. Nesse caso, sua individualidade no seria prejudicada.
Ao contrrio: voc cresceria, como ser humano.
 Entendo o que voc quer dizer. Mas, mesmo assim, a idia de casamento me assusta.
 Talvez porque voc ainda 
 Voc deixou, sim. Mas continuo pensando que esta seria uma boa sada.
Josephine suspirou, com uma pontada de dor. Ento era assim que Alexander considerava o casamento: como uma possvel soluo para um problema e no como o incio de uma nova vida.
H algumas noites, ela sonhara que Alexander a pedia em casamento. Entretanto, no sonho, ele declarava am-la... Coisa que jamais ocorreria, na realidade.
 Quando fazemos algo pelas pessoas, sempre acabamos cobrando, mais cedo ou mais tarde  ela comentou, com tristeza.  Eu detestaria v-lo amargurado, triste ou irritado comigo e com o beb, por sentir-se preso a ns. Oh, no, Alexander. Realmente no. Prefiro que voc nos visite regularmente, do que t-lo por perto vinte e quatro horas, sem a sua real aquiescncia.
 Se voc pensa assim...  Ele fez um gesto vago.
 Esquea o casamento  Josephine sugeriu, tristemente irnica.  No daria certo.
 Est bem. Foi s uma tentativa.  Ele fez uma pausa.  Mudando de assunto, gostaria de saber para onde voc pretende ir, aps o nascimento do beb.
 Como assim?
 Ora, suponho que voc pretenda alugar outro imvel, mais espaoso, para receb-lo.
 No preciso me mudar. Estou muito bem, em meu velho e aconchegante apartamento.
 Mas voc no tem espao, l.
 Claro que tenho. Alis, eu no lhe contei sobre o projeto de transformar metade da minha sala em escritrio?
 Sim, mas achei que...
 Se no fosse pelo beb, eu usaria o quarto contguo ao meu, para isso  Josephine o interrompeu.  Mas ele precisar ter seu prprio cantinho,  medida em que for crescendo.
 Agora chegamos ao ponto que me preocupa: a criana necessitar de muito mais espao do que voc dispe. E  melhor pensar nisso, desde j.
Josephine fitou-o com intensidade, perguntando-se se seu filho herdaria, de Alexander, aqueles olhos azuis e cristalinos.
 Vamos deixar algo bem. claro  disse, com seriedade.  Eu no tenho condies, ao menos por enquanto, de mudar-me para um espao maior.
 Crianas precisam viver com liberdade, Josephine. Uma casa, com um belo jardim e um quintal gramado, nos fundos, seria ideal.
 Como as casas de nossos pais, em East Anglia?
 Sim. Existem vrias desse tipo, aqui em Londres, em bairros pacatos, muito bons de se viver.
 Sei disso, mas, como j falei antes, no estou em condies de...
 Eu estou  Alexander interrompeu-a, categrico.  Voc sabe que ganho bem, com minha profisso: J tenho dois editores interessados em publicar meu livro. Escolherei o que me oferecer a melhor proposta, no apenas em nvel financeiro, mas tambm no que toca  divulgao e distribuio da obra. Assim, ganharei um bom dinheiro. E pretendo aplic-lo para o bem-estar do nosso filho.  Aps uma pausa, finalizou:  Mas, independente do dinheiro do livro, tenho o suficiente para alugar, ou at mesmo comprar, uma boa casa.  Um sorriso insinuou-se em seus lbios.  E isso, Josephine! Vamos comprar uma casa, para receber adequadamente nosso filho.
 Agradeo seu oferecimento, mas no gostaria de depender do seu dinheiro. Sempre fui independente e no pretendo mudar meu estilo, agora.
Alexander franziu a testa, num claro sinal de aborrecimento. Josephine conhecia muito bem aquela expresso.
 Voc se esquece de que este filho no  apenas seu, mas nosso  ele afirmou, num tom severo.  E eu insisto em ajudar voc, no apenas a sustent-lo, mas a propiciar-lhe uma vida confortvel a todos os nveis.
 Eu no esperava outra coisa de voc. Mas no me sentiria bem numa casa que no fosse... minha. Entende o que quero dizer?
Alexander considerou aquelas palavras por um longo momento. De sbito, props:
 E se comprssemos a casa em sociedade?
 No tenho dinheiro para tanto.
 Mas voc poderia amortizar sua parte da dvida, pagando-me uma espcie de aluguel.
 Isso levaria muito tempo.
 E qual  o problema? Eu no preciso desse dinheiro. Estou lhe fazendo esta sugesto apenas para que voc se sinta, tambm, dona do imvel.
No acha que isso  melhor do que atirar pela janela, todos os meses, o dinheiro do aluguel?
 Como assim... atirar pela janela?  ela indagou, confusa.
 Ora, uma pessoa que paga aluguel no tem nenhum retorno... exceto o direito de continuar morando, at o ms seguinte, quando ter de desembolsar, novamente, a mesma quantia. J quando se tratar de pagar seu prprio imvel, a coisa muda de figura. E ento, o que me diz?
 Preciso pensar no assunto  Josephine respondeu, com ar de dvida.
 No h muito o que pensar. Basta concordar e comearei a procurar a casa. Alis, podemos fazer isso juntos, se voc quiser. Teremos, tambm, de mobili-la adequadamente. E creio que voc precisar de um carro novo.
 Por qu? O que h de errado com meu velho Escort?
 Nada, mas voc ter de troc-lo por um veculo mais moderno, condizente com a casa e com o novo status que ir desfrutar.
Agora era Josephine quem estava aborrecida. Sempre fora livre e independente, dona de sua prpria vida. No gostava que ningum dirigisse seus passos, ainda que se tratasse de Alexander, em quem tanto confiava.
 Voc est indo depressa demais  ela disse, por fim.
 E voc est sendo excessivamente orgulhosa.
 No se trata de orgulho, mas de minha autonomia. No suporto a idia de ser dependente de voc:
 No complique as coisas, Josephine  Alexander censurou-a, impaciente.  Droga, ser que j no conseguimos conversar, sem discutir?
E ser que voc no entende que sou capaz de criar meu filho, sem que para isso tenha que mudar, radicalmente, meu estilo de vida?
Alexander fitou-a com exasperao:
 Posso lhe pedir um favor?
 Diga.
 Daqui por diante, queira ter a bondade de referir-se  criana como nosso filho. Assim, a situao ficar mais justa, no lhe parece?
Um silncio tenso caiu entre ambos. Os pssaros continuavam a cantar, nas altas copas das rvores. A luminosidade filtrada entre as folhas parecia quase mgica. Mas Josephine j no se sentia to em paz, como minutos antes.
 No tenho culpa, se minha profisso  mais rendosa do que a sua  disse Alexander.  No tenho culpa, se meu nvel de vida  bem mais alto do que o seu. E acho absurdo voc tentar me impedir de proporcionar, a nosso filho, o conforto de que desfruto.
Josephine quis protestar, mas no conseguiu. Os argumentos de Alexander faziam sentido, isso ela no podia negar.
 Est bem  concordou, embora a contragosto.  Voc sempre tem razo, no  mesmo?
 Nem sempre. Mas, neste caso, estou sendo coerente.
 Certo.
Alexander sorriu, satisfeito:
 Ainda bem que voc concordou.
 E eu tinha outra alternativa?
 Creio que no. Vamos procurar a casa, Josephine. Quanto mais cedo a comprarmos, melhor. Assim poderemos preparar, com calma, o quarto do beb.
Ela concordou com um gesto de cabea, antes de dizer:
 Mas quero que voc saiba que no pretendo deixar de trabalhar. E que s aceitarei o dinheiro relativo ao conforto do beb.
 E  compra da casa, aos mveis e ao carro  Alexander completou.
 Esquea o carro. Eu mesmo o comprarei, quando puder.
 Mas eu j lhe disse que...
 No vou discutir este ponto, Alexander. No quero ser sustentada por voc. Alis, pretendo continuar trabalhando e ganhando o suficiente para cobrir minhas despesas pessoais.
 Est bem, srta. Teimosia.  Ele continuava a sorrir.
 Veja s quem fala... Voc  um cabea-dura! E excessivamente autoritrio, tambm. Nunca desiste de seus pontos de vista.
Num gesto delicado, ele afastou-lhe uma mecha de cabelos ruivos, que caa-lhe na testa.
 Sabe de uma coisa, Josephine? Voc fica linda quando se irrita.
 E voc fica insuportvel quando ganha uma discusso.
 V se entender as futuras mames!  Alexander comentou, divertido.  Se o pai da criana no ajuda, elas o acusam de inescrupuloso e aproveitador. Se ele insiste em colaborar, so chamados de tiranos.
 Eu no o acusei disso.
 Oh, no!  ele retrucou, irnico.  Apenas, disse que sou excessivamente autoritrio. E isso significa o qu?
 Que no quero que voc dirija minha vida, s porque tem mais poder econmico do que eu.
 Mas isso nem me passou pela cabea  ele afirmou, ainda sorrindo.
 No me olhe assim  ela pediu, como se hipnotizada por aqueles olhos azuis.
 Assim... como?
 Desse jeito que cativa, que me faz dizer sim a todas as suas exigncias.
 No sabia que eu tinha esse poder...
 Mas tem. Portanto, no abuse dele.
 Ora...  Alexander a fitava com intensidade, como se lhe desvendasse os mais ntimos pensamentos.  Desde quando voc descobriu isso?
"Desde que fiquei grvida, frgil, e apaixonada por voc", Josephine respondeu, em pensamento.
Ser que a gravidez deixava todas as mulheres naquele estado vulnervel, com vontade de chorar a qualquer momento?
Ou a responsvel por isso seria a paixo que a incendiava?
Bem, fosse como fosse, Josephine no estava disposta a ceder ao encanto daqueles olhos azuis.
Passara tanto tempo sendo amiga de Alexander, amando-o como a um irmo... E agora, como que por um passe de mgica, descobria que ele era o homem por quem esperara a vida inteira.
Apenas, havia uma triste diferena. Em seus sonhos romnticos, o prncipe encantado correspondia a seu amor. Amava-a como a uma deusa de antigos romances, lutava contra tudo e contra todos, desbravava territrios desconhecidos e perigosos... Mas, na realidade, Alexander apenas devotava-lhe o carinho e o respeito de sempre.
A noite de amor que haviam vivenciado nada representava para ele, seno um deslize, uma empolgao casual, Josephine pensou, com amargura.
Era assim que ela deveria encarar o que acontecera entre ambos. Mas, ento, viera o beb... E a descoberta surpreendente: ela amava Alexander Rafferty, com todo o seu corao.
 Em que planeta voc est?  a voz dele interrompeu-lhe as divagaes.
 O qu?  Josephine perguntou, piscando os olhos verdes.
 Voc parecia to longe daqui, embora continuasse a me olhar.
 Oh, eu estava pensando...
 Em qu?
 Nada que valha a pena contar.
 Diga, mesmo assim.
 Estava refletindo sobre como minha vida mudou, desde... Josephine interrompeu-se. Quase ia falando: "desde a noite em que nos deitamos juntos e trocamos tantas carcias. Bem que tentei fingir que aquilo no aconteceu... Mas no consegui e, ento apaixonei-me irremediavelmente."
Ainda bem que calara-se a tempo. Duas borboletas azuis sobrevoaram as flores silvestres, num bale de inigualvel beleza.
 Elas esto se amando  disse Alexander, num tom suave.  Como so lindas.
 A natureza  magnfica.
 Por isso me uni aos que lutam para preserv-la.
 Sim... E eu o admiro por isso, Alexander. Acho que meu filho, quero dizer, nosso filho, ter orgulho do pai.
 Da me tambm.
 Ora...  Josephine sorriu, tmida, baixando os olhos.  Sou apenas uma pessoa comum. No tenho nada de especial.
 Como no?  Alexander ergueu-lhe o queixo, obrigando-a a fit-lo.  Voc  especial, sim...
 Por carregar um filho seu?  ela perguntou, com voz trmula.
 Voc j me era muito querida, antes disso.
 Entendo o que voc quer dizer. Somos especiais para as pessoas que nos querem bem.
 Eu sempre a admirei, independente do fato de ser seu amigo.
  mesmo?  Josephine reagiu, surpresa.  E por que voc, um jornalista de renome, admiraria algum to comum como eu?
 Ora, porque voc  uma grande lutadora. Podia muito bem ter se acomodado  vidinha pacata de East Anglia. Entretanto, veio para Londres, estudou, lutou e conquistou seu lugar no mundo. No acha que tudo isso  admirvel?
 Talvez  Josephine respondeu, com ar de dvida.  Para mim, parece normal...
 Mas no . Uma pessoa como voc, jovem, elegante, bonita, inteligente...
 Jura que voc pensa tudo isso a meu respeito?  ela o interrompeu, espantada.
 Voc no sabia?
 Claro que no.
Na verdade, Josephine tinha conscincia de ser bela e atraente. Estava acostumada a despertar admirao nos homens e aprendera a livrar-se de seu assdio, de maneira fina e elegante.
Mas nunca pensara que Alexander a visse daquela maneira... Sempre o julgara superior, uma espcie de irmo mais velho, de dolo, de exemplo a ser seguido.
 Pois penso isso e muito mais  ele continuou.
 Ultimamente, tenho-a achado ainda mais bonita.
 Jura?
 Sim.
 Dizem que as mulheres grvidas adquirem uma aura de singular encanto.
 Mas no  desse encanto que estou falando, Josephine.
 Ento, qual?
 Refiro-me ao seu encanto pessoal.
Os rostos de ambos estavam, agora, muito prximos. Uma espcie de corrente eltrica os percorria, atraindo-os. Josephine tentou resistir quela fora, que delicadamente a incitava a chegar mais perto...
Entretanto, como dizer no quela mo invisvel que a empurrava sutilmente, que a fazia aceitar a mo de Alexander sobre a sua, puxando-a para ainda mais perto?
O que estava acontecendo, afinal? De um momento para outro, o mundo em torno parecia ter perdido o sentido.
Nada mais existia, seno os olhos de Alexander, os traos perfeitos daquele rosto msculo, a boca sensual...
"Oh, Deus, ele vai me beijar", Josephine constatou, estremecendo. "E, o que  pior, no tenho a menor vontade de impedi-lo."

CAPTULO VII

Se algum dissesse a Josephine que uma mulher apaixonada, quando nos braos do homem amado, seria capaz de esquecer seu prprio nome, o lugar onde se encontrava e at mesmo a cidade onde nascera... Ela no acreditaria... Ao menos at aquele momento, quando se sentia arrebatada de si mesma e do mundo ao redor, para penetrar num territrio novo, pleno das mais ricas emoes.
Como era seu nome?
Josephine... Ou seria Joanne?
Onde estava?
Em algum lugar onde era possvel alar vo, rumo a uma paraso que, at ento, ela s vislumbrara em sonhos.
E o nome da cidade onde nascera?
West Anglican? East Anglia? Bem, alguma coisa parecida com isso...
Josephine entregava-se aos beijos de Alexander com a confiana e soltura de um pssaro que se lanasse aos cus, num vo de liberdade.
Aquele homem sabia como roubar-lhe a vontade prpria, tornando-a cativa de um fogo que s mesmo uma grande paixo poderia aplacar.
O corpo de Josephine pulsava, como uma flor que se abrisse ao sol. Apertando Alexander contra si, ela tentava transmitir-lhe a intensidade do desejo que a queimava.
Ele afagava-lhe os cabelos ruivos, deixava que as mos lhe escorregassem pelas costas e cintura, tocava-lhe o contorno suave dos quadris delineados sob a cala de malha cor de creme que, em breve, ela deixaria de usar.
Depois,  medida que os beijos se tornaram ainda mais intensos, Alexander buscou-lhe os seios sob a blusa, tambm cor de creme, porm com detalhes em marrom.
Josephine gemeu de prazer, enquanto murmurava, baixinho, o nome do homem amado:
 Alexander...
Ele calou-a com um novo beijo, ao qual Josephine correspondeu, com a intensidade do desejo que a incendiava.
Quando por fim os lbios de ambos se afastaram, Josephine ficou um bom tempo, com os olhos fechados, tentando normalizar o ritmo da respirao. E tentando, tambm, absorver a onda de pura felicidade que inundava seu corao.
"Ele me ama", dizia a si mesma, tocando delicadamente o ventre. "Ele me ama. O impossvel aconteceu: Alexander corresponde a meu amor. Em breve, formaremos uma verdadeira famlia... Seremos eu, ele... e voc, meu querido beb."
 Josephine.  A voz de Alexander interrompeu-lhe os pensamentos.
 Sim?  ela indagou, docemente, enquanto abria os olhos.
 Precisamos conversar.
 Claro  Josephine assentiu, antegozando a hora em que Alexander lhe declararia seu amor.
Naquele momento, um grupo de adolescentes aproximou-se, em alegre algazarra.
 Por que no vamos para minha casa?  ela sugeriu, observando o grupo, que foi sentar-se a poucos metros de distncia.  Assim, poderemos falar  vontade.
Alexander pareceu hesitar, mas por fim concordou.
 Est bem.  Num gesto galante, ofereceu-lhe a mo.
Apoiando-se, Josephine levantou-se e caminhou, a seu lado, em direo ao estacionamento do Jardim Botnico.
Pouco depois, Alexander dirigia seu reluzente BMW em direo ao bairro onde Josephine morava.
Seria impresso, ela se perguntou, ou Alexander parecia preocupado?
No... Decidiu, chamando-se de tola. Ele certamente estava refletindo sobre a melhor maneira de se colocar, na conversa que teriam dali a pouco.
Josephine conhecia-o o suficiente para saber que Alexander sofria de uma timidez crnica. O fato de ser jornalista e de ter uma vida social intensa o ajudara a ser mais descontrado. Mas, no fundo, ele continuava a ser o menino tmido de sempre.
A medida que avanava no trajeto, Alexander ia se tornando mais calado e sisudo. Mas Josephine j no se preocupava com isso. Sabia que, quando chegasse o momento, ele lhe confessaria seu amor.
 Voc... no est esperando visitas?  Alexander perguntou, ao estacionar em frente ao edifcio onde ela morava.
Josephine compreendeu que ele se referia ao fato de ter encontrado Justin Wood em seu apartamento, naquele dia que ela preferia esquecer.
"Mas no vou me deixar abater por este pequeno aborrecimento, quando h tanto em jogo", disse para si. E num tom casual, respondeu:
 S espero telefonemas de retorno ao anncio que coloquei no jornal, oferecendo meu trabalho.
 timo  Alexander murmurou, saltando do veculo. Contornando-o, abriu a porta para que ela descesse.
 Obrigada  Josephine agradeceu, enquanto saa. Pouco depois, abria a porta de seu apartamento.  Entre, Alexander. Fique  vontade.
Em silncio, ele acompanhou-a at a sala.
 Sente-se.  Josephine apontou-lhe o sof.  Posso oferecer-lhe alguma coisa?
 No, obrigado.
 Nem mesmo um caf, um suco...
 No.  Alexander continuava em p.  Mesmo porque, nossa conversa ser breve.
 Ser?  ela repetiu, um tanto confusa.
 Sim. O que tenho a dizer  um tanto difcil, mas...
 Fale sem restries  Josephine encorajou-o.
Alexander baixou os olhos, como se imerso em sombrios pensamentos.
 Espere um momento, sim?  disse Josephine.
 Vou abrir as cortinas.
A caminho da ampla janela envidraada, ela notou que a luz da secretria eletrnica piscava, acusando doze recados. Esse era um timo sinal, pensou, satisfeita. Certamente, entre uma dzia de chamadas, haveria ao menos duas ou trs boas possibilidades de trabalho.
A tarde j ia pelo meio. Com as cortinas da sala abertas, os raios de sol invadiram o ambiente, desenhando rstias douradas no cho.
Josephine voltou para perto de Alexander, que a fitava com um misto de tristeza e apreenso.
 Vou me sentar, ainda que nossa conversa seja breve  ela anunciou, acomodando-se no sof menor, de dois lugares.  Adorei o almoo e o passeio, mas confesso que fiquei um pouquinho cansada.
 Est se sentindo mal?  ele perguntou, sobressaltado.
 No.  Josephine sorriu.  Preciso apenas relaxar um pouco.  Puxando um pequeno banquinho para perto de si, descansou as pernas sobre ele.  Assim est melhor.
 timo  Alexander assentiu, muito srio. E comeou a andar de um lado a outro da sala, denunciando uma terrvel inquietao.
Josephine esperou, em silncio, que ele abordasse o assunto. Mas Alexander apenas continuava andando e esfregando as mos, num nervosismo crescente.
 Se continuar olhando voc andar de l para c e vice-versa, acabarei sofrendo uma vertigem.  Ela tentou gracejar. Depois, num tom suave, tentou encoraj-lo.  Imagino que esteja sendo difcil, para voc, dizer o que sente. Para mim tambm seria, sabe?
 Seria?  ele repetiu, erguendo as sobrancelhas, com ar de dvida.
 Pode apostar que sim. Mas no se preocupe, Alexander. Fale  vontade, abra seu corao. Pois sinto exatamente o mesmo que voc.
 Como?  Ele a fitava, com ar confuso.
 Isso mesmo que voc ouviu: o que voc sente, por mim,  totalmente correspondido... Incrvel, no? Somos amigos h tanto tempo! Como poderamos imaginar que um dia tudo mudaria de figura e...
 Espere um momento, Josephine.  Ele meneou a cabea, como se tentasse ordenar os pensamentos.  Ser que estamos falando do mesmo assunto?
 Com certeza, meu querido Alexander  ela declarou, sem sombra de dvida.  E no fique to espantado com seus sentimentos, pois tambm me senti assim... a princpio. Voc v como nada, na vida, acontece  toa? Quando me descobri apaixonada por voc, achei que tinha enlouquecido... Ou, ao menos, que estava confundindo as coisas. Mas depois compreendi que no... Que, surpreendentemente, o amor estava acontecendo dentro de mim. E eu nada podia fazer, para impedi-lo.
A voz de Josephine soava carregada de emoo. E ela fez uma pausa, para respirar profundamente, antes de prosseguir.
 Resignei-me, ento, a amar sem esperanas. Pois acreditava, sinceramente, que voc jamais me corresponderia. Por isso fiquei to feliz, l no Jardim Botnico, quando voc me beijou daquele jeito. Somente algum que amasse, de verdade, seria capaz de beijar assim.
 Josephine, eu...
 No procure entender, Alexander. Creio que os sentimentos obedeam a outra ordem, bem diferente da razo... Por isso eles nos surpreendem e, quando menos esperamos, nos flagramos apaixonados.
 Josephine...
 Hoje mesmo, no Jardim Botnico, quando voc falou sobre comprar uma nova casa, para receber o beb, recusei a idia, ao menos a princpio. Depois voc me convenceu e, assim, acabei concordando. Mas houve um momento, durante a conversa, em que l no fundo, no recanto mais ntimo de meu corao, cheguei a sonhar que voc falava de nossa casa, da formao de nossa famlia. Depois, cortei bruscamente aquele sonho e chamei-me de tola, romntica...  Ela suspirou, enlevada.  Mas ento aconteceu aquele beijo. E tudo mudou, meu querido.
Alexander fitou-a longamente, com uma expresso que Josephine no conseguiu identificar.
Com um sorriso, ela esperou pela declarao de amor... que no veio.
 Desculpe, mas acho que um terrvel mal-entendido est acontecendo, aqui  ele disse, por fim.
 Como?
 At parece que estamos falando uma lngua diferente...  Alexander voltou a andar de um lado a outro, mostrando-se ainda mais tenso.
Dessa vez, porm, Josephine no o admoestou. Preferiu esperar, em silncio. Afinal, j tinha tentado encoraj-lo. Mas ele continuava to ou mais tmido do que antes.
Assim, s restava aguardar, ela decidiu, com o corao acelerado, ante a iminncia de ouvir as palavras com que tanto sonhara.
 Josephine Smith...  Alexander parou  sua frente.
 Sim?
 Se entendi bem, voc... apaixonou-se por mim? Josephine sorriu, radiante, ao responder:
 Isso mesmo. E, pelo visto, o mesmo se deu com voc.
 No.
Josephine franziu a testa, dizendo a si mesma que no tinha entendido bem.
 Como assim, Alexander?
 No  ele repetiu.  Na verdade, nem sei como chamar o que sinto, ou melhor, o que senti por voc, desde a noite que passamos juntos, at meu regresso de Paris.
Josephine reagiu, desconcertada.
 Mas o modo como voc me beijou, hoje  tarde...
 Levando a mo  testa, indagou, como se para si:
	Ser que me enganei? Ser que meu corao estava me pregando peas, fazendo-me acreditar que era correspondida em meus sentimentos?  Fitando-o com intensidade, perguntou:  Diga-me, o que represento para voc, alm do fato de ser me de seu filho?
 A est uma pergunta difcil.  Alexander sentou-se em frente a ela. Parecia aliviado, agora que afinal tinha abordado o assunto.  Voc falou do modo como a beijei, hoje...
 Sim  ela assentiu, num fio de voz.
 Aquilo foi um deslize, que no deve se repetir.
 Como?
 Deixe-me explicar melhor, Josephine. E, por favor, no me interrompa.
 Fale. Afastando o banquinho, ela recostou-se no sof.
 Bem, no comeo, fiquei muito confuso.
 No comeo... de qu?
 Ora, voc sabe do que estou falando. Refiro-me  noite em que passamos juntos. Eu quis esquecer, sabe? Mas parecia impossvel...
 Para mim tambm  ela confessou, com os olhos baixos. Em seguida desculpou-se.  Oh, perdoe-me. Voc me pediu para no interromper...
 Para voc tambm foi difcil?  ele indagou, surpreso.
 Claro. Eu tentava ignorar, mas...
 Entretanto, comportava-se como se nada houvesse ocorrido.
 Exato.  Josephine suspirou, profundamente.
 Mas isso j no importa, agora. Continue, por favor.
 Bem, eu disse a mim mesmo que, para voc, aquela noite no havia significado nada. E tentei levar a vida adiante. Ento veio a notcia de sua gravidez... J conversamos sobre isso e voc sabe como me senti.
Alexander fez uma pausa. Estava evidentemente nervoso e parecia lutar muito, para manter o controle.
 Depois daquela conversa, no escritrio de meu pai, algo mudou dentro de mim. Fiquei encantado com voc, sabe? Sua dignidade, sua preocupao em no me prender num compromisso para o qual eu no estava preparado, sua auto-suficincia... Tudo isso me comovia. Sou um homem experiente, Josephine. E sei que muitas mulheres, em seu lugar, tentariam tirar proveito da situao.
 No sou desse tipo.
 Nem precisa me dizer. Estou perfeitamente consciente disso.  Alexander ficou pensativo por alguns instantes e s ento prosseguiu:  Ns continuamos nos falando, por telefone, e at chegamos a nos ver. Mas comecei a me sentir... diferente.
 Como assim?
 Ficava emocionado quando a encontrava, ou lhe telefonava. Pensava em voc o tempo todo, em como estaria se sentindo, ou no que estaria fazendo...  Um sorriso melanclico estampou-se nos lbios de Alexander.  Pela primeira vez, eu me sentia como um adolescente apaixonado. No conseguia tirar voc da mente, essa era a verdade. Perguntava-me, muitas vezes, se eu no estaria confundindo as coisas. Afinal, tratava-se da me de meu filho. E talvez isso mexesse comigo, a ponto de me fazer transferir, para voc, o amor que sentia pelo beb. Mas no foi o que aconteceu...
O telefone tocou, interrompendo aquele momento importante.
 Voc vai atender?  Alexander indagou.
 No.  Josephine respondeu, com um meneio de cabea.  Seja l quem for, deixar um recado.
Alexander assentiu, mas no continuou a falar. Ao quarto toque, a secretria eletrnica foi acionada. Aps a gravao, a voz de Justin Wood soou na sala:
"Al, doura... Aqui  Justin. Liguei para saber de voc. Telefone-me, sim? Um beijo."
 Ele, de novo  disse Alexander, por entre os dentes.  Vocs se falam com frequncia, no ?
 Quase nunca  Josephine respondeu, insegura, no porque estivesse mentindo, mas por ver, nos olhos de Alexander, uma expresso de incredulidade.  Acredite ou no, esta  a primeira vez que Justin me telefona, desde aquele dia...
 Em que voltei de Paris?  Alexander completou.
 Sim.
Ele desviou o rosto, visivelmente perturbado.
 Importa-se se eu continuar o que estava falando?
 Lgico que no. Alis, fao questo de ouvi-lo.
Um breve silncio, denso e pesado, caiu entre ambos. Por fim Alexander prosseguiu:
 Quando fui para Paris, participar daquele congresso, achei que as novidades da viagem e o trabalho me fariam esquecer voc. Mas, ao contrrio, a distncia s serviu para fortalecer, ainda mais, o que eu sentia.  Embaraado, ele confidenciou:  Cheguei at a escrever-lhe uma carta de amor... Pode acreditar nisso?
 No a recebi  ela declarou, surpresa e muito confusa. Onde Alexander pretendia chegar, afinal?
 No a enviei.
 Por qu?
 Porque pretendia entreg-la pessoalmente, junto com as correntinhas e os pingentes.
 Mas voc no me deu a carta...
 Porque Justin estava dormindo aqui, neste sof  a voz de Alexander soou subitamente spera.
 Mas eu j lhe expliquei, mil vezes, que...
 Sim, voc j explicou. S que no consegui acreditar.
 Mas...
 Voc justificou tudo, Josephine. As evidncias, porm, so muito fortes. Eu chego de viagem, voc d mil desculpas para no me deixar entrar e ainda por cima tenta me enganar, pedindo-me para ir comprar doces e croissants... Ento eu ouo Justin roncando, em sua sala. O que devo deduzir, de tudo isso?
Josephine ia dizer algo, mas ele calou-a com um gesto.
 Supondo-se que eu tivesse acreditado em sua verso a respeito da presena de Justin... O que deveria pensar agora, ouvindo-o telefonar para voc, tratando-a com intimidade, chamando-a de doura...
 Ora, pelo amor de Deus, Alexander Rafferty!  ela o interrompeu, categrica.  Pare com essas histrias. No sou do tipo que trai, sabe? Nunca fui.
 Mas as evidncias...
 Deixe esse tipo de argumento para os detetives. Eles sim, devem andar atrs de evidncias. Mas nossa relao  bem outra. Conhecemo-nos desde a infncia, no ? Sempre tivemos confiana um no outro. E no deveramos nos esquecer disso, sabe? Portanto, se estou afirmando que no h nada entre Justin e eu, pode acreditar, pois  a pura verdade.
 Eu no gosto de ser enganado, Josephine.
 E eu no gosto de enganar... Nem a voc, nem a ningum e muito menos a mim mesma.
 J chega.  Alexander levantou-se.  No quero discutir. Minha inteno era apenas explicar o motivo pelo qual no posso me apaixonar por voc.
 E que motivo  esse?  Ela o desafiou, erguendo-se tambm.
 Voc j percebeu... Trata-se de algo muito grave, Josephine.  Ele a fitava no fundo dos olhos.  No confio em voc. Tentei, com todas as minhas foras, acreditar que voc dizia a verdade, a respeito de Justin. Mas no consegui. E agora, com este telefonema...
 Espere um momento, Alexander Rafferty.  Ela cruzou os braos.  Voc est dizendo que se apaixonou, mas que prefere sufocar este sentimento, j que no acredita em mim?  isso?
 No prefiro sufoc-lo  ele a corrigiu, exasperado.  Apenas, sou obrigado a faz-lo. Voc viu muito bem, hoje, no Jardim Botnico, o modo como me sinto. Mas no quero me aproximar de voc, novamente. No daquele jeito. Pois no posso amar uma mulher em quem no confio. Eu me sentiria inseguro o tempo todo, entende? E faria, de nossa vida, um inferno.
As lgrimas afloraram aos olhos de Josephine.
 Desculpe-me, Alexander... Mas, com sua desconfiana, voc j est fazendo, de minha vida, um inferno.  Sufocando um soluo, ela prosseguiu:  Tente imaginar um castigo maior do que o meu: amar um homem, ser amada por ele e, no entanto, no poder desfrutar deste amor, simplesmente porque este homem no confia em mim.
 Ningum, mais do que eu, lamenta esse fato. Mas tenho motivos para me sentir assim... Desde o incio, a sombra de Justin Wood pesa sobre ns. Na noite em que nos entregamos um ao outro, voc estava sofrendo por ele. Depois, quando me descobri apaixonado e vim lhe confessar meu amor... Ele estava aqui, dormindo em sua sala. E at mesmo agora, durante nossa conversa, ele vem se intrometer.
 Deve ser uma armadilha do destino  Josephine murmurou, como se para si. As lgrimas escorriam-lhe livremente pelo rosto. E ela j no se importava em enxug-las.
 No fique assim  Alexander recomendou, num tom mais suave.  Pode ser prejudicial...
 Ao beb?  Josephine encarou-o com um misto de raiva e mgoa.  No acha que sua desconfiana  ainda mais nociva, Alexander?
 No foi minha inteno deix-la descontrolada desse jeito. S me expus, abertamente, foi para que voc compreendesse o motivo pelo qual no podemos ter uma relao mais profunda.
 Ento...  a voz de Josephine soava trmula  por que me convidou para almoar, por que me levou para o Jardim Botnico e...
 Eu queria lhe falar sobre a casa. Desejava, tambm, reatar nossa amizade. Pois, independente do fato de voc ter mentido para mim, eu ainda a quero muito bem.
 Eu no menti!  Josephine quase gritou.  O que terei de fazer, para que voc acredite nisso?
 Quer se acalmar, por favor? Se no por mim, faa-o pelo beb.
Josephine fechou os olhos, lutando desesperadamente para readquirir a calma. Ao menos naquele ponto, Alexander tinha razo, ela pensou. No podia entregar-se ao desespero. A vida, ainda muito frgil, que se formava em seu ventre, no tinha culpa dos mal-entendidos e das tolices humanas...
 Posso lhe pedir uma coisa, Alexander?  ela indagou, por fim, com a voz ligeiramente mais calma.
 Pea-me que quiser. Voc sabe que sempre poder contar comigo.
 Verdade?
 Claro.
 Voc far qualquer coisa que eu lhe pedir?
 Sim.
 Ento, v embora e deixe-me em paz. Eu o informarei, quando o beb nascer. Voc poder visit-lo quando quiser. Mas, at l, por favor, no me procure.
 Josephine!  ele exclamou, chocado.  Voc tem conscincia do absurdo que acaba de dizer?
 Estou apenas lutando para manter minha sanidade mental, Alexander. Estou gerando um beb, preciso de paz para fazer isso e tambm para reestruturar minha vida.
 E acha que conseguir essa paz... me afastando de sua vida?
 Exato. Voc no pode amar uma mulher em quem no confia... Certo? E eu no posso ter, por perto, um homem que me considera mentirosa... Fui clara?
 Josephine...
 Voc disse que faria qualquer coisa que eu lhe pedisse. Pois bem, vejamos se consegue manter sua palavra.
 Voc... no tem o direito de me impedir de acompanhar sua gravidez.
 E voc tem o direito de me acusar de infiel e mentirosa?
 Voc sabe jogar com as palavras, Josephine.
Mas no conseguir me convencer a deixar de v-la. Apesar de tudo, voc ainda  a me do meu filho.
 Alexander afastou-se em direo ao hall. Mas voltou sobre os prprios passos, para dizer:  Quanto  casa...
 Esquea. No quero nada seu.
 Mas a criana...
 Compre o que quiser, para ela. Mas apenas para ela, Alexander... Ouviu bem?
 Voc tem um orgulho maior do que o mundo.
 No me acuse de nada  Josephine o advertiu, indiferente  nova torrente de lgrimas que escorriam-lhe pelas faces coradas de indignao.  Posso ter muitos defeitos, mas no costumo jogar a felicidade pela janela, como voc est fazendo.
Ele franziu o cenho, com ar intrigado. E Josephine prosseguiu:
 Est em suas mos decidir a felicidade sua, minha e do beb. Entretanto, por conta de um orgulho machista, voc prefere acreditar que Justin e eu temos um caso.
 No vulgarize a situao a este ponto.
 Que diferena faz falar deste ou daquele jeito se, no fundo, a verdade  esta?
 E voc pensa que gosto de me sentir assim?
 Alexander elevou a voz.  Acha que eu no preferiria entregar-me ao que sinto e construir, a seu lado, um lar feliz para receber o beb?
 Se voc realmente quisesse isso, faria  Josephine sentenciou, com amargura.  Mas seu orgulho  mais forte, no, Alexander? E voc ainda vem falar de mim...
 Vamos parar com esta discusso  ele decidiu, num tom mais baixo.  Mesmo porque, no chegaremos a nada.  E saiu, sem mais uma palavra.
Com o rosto mergulhado entre as mos, Josephine chorou copiosamente. A dor no diminuiu, mas ao menos seu corao j no pulsava acelerado, como se lhe fosse sair pela garganta. E suas mos aos poucos pararam de tremer.
Sem nenhuma vontade, ela foi at a cozinha e preparou um lanche. Fazia-o pelo beb, no por si mesma.
A tarde caa, num esplendor de cores, prprio do vero. Mas Josephine, contemplando o cu pela pequena janela da cozinha, estava triste demais para admir-la.
 No podemos ver a beleza, quando a amargura nos habita  murmurou. Mas sabia que no poderia entregar-se  tristeza. Pois, mais do que alimentos materiais, a vida que crescia em seu ventre necessitava de calma, carinho, serenidade... Alimentos impalpveis, mas to imprescindveis e preciosos quanto os outros.

CAPTULO VIII

 Papai!  Alexander exclamou, com um largo sorriso.  Que surpresa! Patrick Rafferty estava muito elegante, num sobretudo marrom, sobre um terno de tom ligeiramente mais claro. Depois de abraar o filho com efuso, perguntou:
 Voc no recebeu meu recado? Liguei ontem  noite, avisando-o que viria visit-lo.
 Desculpe, papai, mas cheguei to tarde, ontem, que nem tive tempo de acionar a secretria eletrnica.
Patrick Rafferty fitou-o com preocupao:
 Voc parece cansado, filho... Tem trabalhado muito?
 Sim. Meu livro ser lanado em breve e as reunies com o editor tm sido exaustivas. Isso, sem contar que fui contratado, por um prazo de trs meses, para escrever sobre ecologia, numa revista especializada em trekking. O objetivo  orientar os praticantes deste esporte, a respeito do modo como devem tratar o meio ambiente. Adoro o assunto, mas tenho de pesquisar muito e isso  cansativo.  Alexander sorriu.  Mas no quero aborrec-lo, com meus problemas profissionais. Entre, papai. Venha se aquecer, junto  lareira.
O outono j ia pelo meio. A temperatura cara sensivelmente.
A casa de Alexander era ampla e espaosa, situada num local privilegiado da cidade, circundado por belos bosques, cujas rvores iam perdendo as folhas,  medida que a estao avanava.
Dentro de pouco tempo as folhas secas formariam um macio tapete marrom-avermelhado, cumprindo o ciclo da vida. Depois, o inverno chegaria, estendendo seu manto branco. E ento viria o renascer: a primavera, com sua magia e fora, que a tudo e todos contagiava.
Acomodando-se numa cadeira de balano em frente  lareira acesa, Patrick Rafferty tirou as luvas e esfregou as mos, para se aquecer.
 Tire o sobretudo, tambm, papai  Alexander sugeriu.
 Eu viraria um picol, em poucos minutos  Patrick Rafferty recusou o oferecimento, com seu habitual bom-humor.
 Instalei um novo sistema de aquecimento, aqui em casa. E simplesmente perfeito.  Olhando para si, Alexander acrescentou:  No v que estou usando apenas jeans e um suter?
De fato, ele vestia uma malha azul-marinho, de gola role, bastante leve para a estao.
 Mesmo assim, prefiro continuar de casaco  Patrick Rafferty decidiu.
 Como quiser, papai. A propsito, posso lhe oferecer alguma coisa? Um copo de vinho quente, conhaque, ch...
 Uma boa dose de conhaque iria muito bem...
 Certo.
Alexander serviu dois copos, deu um ao pai e acomodou-se a seu lado, numa cadeira.
Ambos brindaram e sorveram a bebida, em pequenos goles.
 Como est mame?  Alexander perguntou, aps alguns instantes.
 Bem. Manda beijos e protestos.
 Como ?
 Beijos saudosos... E protestos por voc ficar tanto tempo sem aparecer por l.
 Tenho trabalhado muito  Alexander justificou-se, com os olhos fixos nas chamas.  Mas ligo com frequncia para vocs, no  mesmo?  Segundo sua me, o telefone serve apenas para tapear a saudade, mas no para acabar com ela  Patrick Rafferty afirmou, num tom espirituoso, como alis era seu estilo. Aps uma pausa, indagou:  Estou atrapalhando voc, filho?
 Em absoluto, papai. Hoje tenho o dia livre. Mas, mesmo que surja algum trabalho de ltima hora e eu tenha de sair, voc poder ficar aqui.
 Obrigado. Mas talvez eu volte para East Anglia hoje mesmo.
 Fique comigo, ao menos at amanh.
Patrick Rafferty meneou a cabea lentamente, em sinal de negao.
 Voc sabe que sou um bicho do mato, no ? E no consigo viver fora de minha toca. Alm do mais, no gosto da idia de sua me ficar sozinha, l em casa.
 E bem capaz de ela se sentir aliviada por se ver livre de voc, por algumas horas  Alexander gracejou.
  possvel  Patrick concordou, divertido.  Mas se voc visse o olhar de sua me, quando samos... At parecia que amos para a guerra!
 Voc disse... quando samos? Quer dizer ento que no veio sozinho?
 Exato. Na verdade, vim para acompanhar Bill e Jessie.
 Eles esto em Londres?  Alexander surpreendeu-se.  E por que no vieram me visitar?  Levando a mo  testa, concluiu:  Ora, que pergunta boba.  bvio que decidiram, primeiro, ver Josephine. Mas com certeza viro para c, depois...
A expresso de dvida de Patrick Rafferty alertou Alexander de que algo no ia bem.
 Eles ficaro com Josephine, filho. Ou talvez apenas Jessie ficar com ela... Tudo vai depender do que a junta mdica decidir.
Alexander ergueu-se de um salto.
 Voc quer dizer que... Josephine est doente?
 Ela est grvida, filho.  natural que visite a maternidade, regularmente.
 E para isso precisa ser assistida por uma junta mdica?  Alexander indagou, desconfiado.
 Bem, no vale a pena se preocupar. Ficaremos sabendo da situao real de Josephine, ainda hoje.
 O que houve com ela?  Alexander perguntou, com voz trmula.
Patrick Rafferty olhou-o longamente. Depois, sem uma palavra, serviu uma segunda dose de conhaque para ambos. Fazendo tilintar seu copo contra o de Alexander, disse:
 Sente-se, filho. J faz tempo que quero ter uma conversa com voc, de homem para homem. Acho que chegou o momento.
Com uma expresso tensa, Alexander esperou que o pai abordasse o assunto que o trouxera at ali. Agora sabia que Patrick Rafferty no viera apenas para fazer uma simples visita.
 Por favor, seja franco e direto  pediu, aps alguns instantes.  O que aconteceu com Josephine? Ela est bem? E o beb?
 Calma  Patrick Rafferty recomendou.  No fique nervoso.
 Como vou me manter calmo, quando meu filho e minha mulher esto correndo risco de vida?
 O que disse?  Patrick Rafferty estreitou os olhos em sua direo.  Voc se referiu a Josephine e ao beb como... seu filho e sua mulher? Foi isso?
Alexander baixou o rosto. Compreendia muito bem o que o pai queria dizer. Afinal, nos ltimos trs meses, ele no vira Josephine. Telefonara vrias vezes, para dar e receber notcias. Mas isso fora tudo.
Josephine continuara firme em sua deciso de no aceitar uma nova casa. Ele, ento, deixara de insistir.
Ela sempre retornava suas ligaes, mas tratava-o com polida distncia. Informava-o sobre seu estado e o do beb e logo se despedia.
 Josephine est sendo examinada, agora. Jessie ou Bill telefonaro para c, assim que os mdicos derem um parecer sobre seu estado. Portanto, s nos resta esperar.
 Certo  Alexander assentiu, com o corao acelerado pelo nervosismo.
 Filho?
 Sim?
 Tenho um puxo de orelhas a lhe dar.
 Como?
 Bem...  A voz de Patrick Rafferty soava carinhosa, mas firme.  Se voc realmente considera Josephine e o beb como sua famlia, ento seria melhor mudar de atitude.
 O que acha que eu deveria fazer?  Alexander indagou, com uma ponta de desafio na voz.
 Oh, tantas coisas...
 Diga, papai.
 Em primeiro lugar, voc deveria parar com esse orgulho estpido e machista.
 O qu?  Alexander empalideceu. Nunca, em toda a sua vida, ouvira do pai palavras to duras.
 Em segundo lugar, filho...
 Espere um momento  ele aparteou, depois de sorver um gole de conhaque.  Voc acabou de fazer uma acusao muito sria. Espero, ao menos, que me explique porque pensa assim a meu respeito.
Patrick Rafferty suspirou, profundamente.
 Desculpe-me. Voc sabe que tenho um gnio difcil e explosivo.
 Voc pode ser genioso, mas no inconsequente. Se me acusou de machista e orgulhoso, deve ter seus motivos... Quero saber quais so.
O velho senhor bebericou o conhaque e, depois, colocou o copo sobre a lareira. Em seguida voltou a sentar-se e ficou pensativo por alguns instantes. S ento disse:
 Voc sabe como so as coisas, entre nossa famlia e a de Josephine. As notcias correm. No se trata de fofocas... Elas simplesmente correm e, quando damos por ns, estamos sabendo de coisas que talvez ho nos digam respeito.
 Seja mais claro, papai  Alexander pediu, aflito, colocando seu copo, j vazio, ao lado do de Patrick Rafferty.  No estou entendendo aonde quer chegar.
 Josephine tem frequentado nossa casa, sempre que vai a East Anglia. Basta olhar para ela, para ver o quanto est triste.
 Ela... parece muito deprimida?
 De modo algum. Fisicamente, est tima. Alis, nunca esteve to linda. Mas eu a conheo, como se fosse minha filha. E leio, no fundo de seus olhos, uma profunda amargura.
 Ela... chegou a falar disso, papai?
 Comigo, no. Mas conversou com Maggie... E tambm com Bill. Da, acabei sabendo.
 Sabendo o qu?  Alexander indagou, ansioso.
 Que vocs dois andaram se desentendendo.
 Infelizmente,  verdade  ele confirmou, passando a mo pelos cabelos negros, num gesto de tristeza e cansao.  E o que Josephine disse sobre isso?
 No muita coisa. Apenas, falou que vocs j no se compreendiam, nem se apoiavam, como antes. E que temia perder sua amizade, para sempre.  Patrick Rafferty fez uma pausa.  Posso lhe contar um segredo?
 Claro, papai.
O velho senhor ficou em silncio, como se procurasse as palavras adequadas para o que tinha a dizer.
 Hoje em dia, as pessoas no costumam se casar, para ter filhos. Mas, no sei por qu, quando Josephine anunciou a gravidez, tive o palpite de que voc a desposaria.
 Voc quase acertou.
 No entendi.
 Cheguei a lhe propor casamento, sim. S que ela no quis.
 Mas voc teria feito isso?
 Claro.
 Apenas pelo beb?
 A princpio, sim.
 O que quer dizer com... "a princpio"?
 Trata-se de uma longa histria, papai.
 Acho que gostaria de ouvi-la, mas antes quero fazer uma pergunta.
 Diga.
 O que voc sente por Josephine? Alexander hesitou:
 Esta  a longa histria  qual me referi.
 Se quiser se calar, eu compreenderei. Alexander considerou o oferecimento, mas por fim decidiu-se:
 Vou falar, sim, papai. Afinal, estou precisando desabafar um pouco.
E narrou, em detalhes, tudo o que sentira, desde a noite em que possura Josephine, h quase sete meses.
Falou sobre o susto que levara, ao receber a notcia da gravidez... Um susto que, afinal, no fora maior do que a descoberta de que sentia, por aquela mulher, algo alm da mera amizade.
A medida que abria seu corao, Alexander ia sendo invadido por uma sensao de alvio. Era como se aquelas dvidas e dores o houvessem oprimido, nos ltimos tempos, impedindo-o de viver, de respirar.
Mais difcil, porm, foi abordar a decepo que sentira, ao descobrir Justin no apartamento de Josephine, quando voltara de Paris. E de como Josephine tentara mascarar o fato. Depois, a reincidncia da presena de Justin na vida de Josephine, s servira para lhe dar a certeza de que jamais poderia confiar nela.
 Se no fosse por isso, papai, ns hoje estaramos juntos...  ele finalizou, com tristeza.  E tudo seria muito diferente.
 Se estou entendendo bem, mudar ou no a situao... s dependeria de voc. E isso?
 De certa forma, sim.
 Quer dizer que se voc pedisse Josephine em casamento... ela aceitaria?
 Sem dvida.
 O que o faz ter tanta certeza?
 O fato dela me amar.
 Quem falou que Josephine o ama?
 Ela mesma, com todas as letras.
 E voc acreditou?
 Sim  Alexander respondeu, sem entender aonde o pai pretendia chegar.
 Vamos colocar as coisas de um modo bem claro: voc tem certeza de que Josephine o ama, porque ela mesma disse isso... Certo?
 Exato.
 Entretanto, ela tambm lhe disse que no tinha nada com Justin... Mas, nesta afirmao, voc no acreditou. Por qu?
Pego de surpresa, Alexander no conseguiu responder de imediato.
O velho senhor continuou:
 Estranho, no  mesmo, filho? Voc confia em Josephine para uma coisa... E desconfia com relao a outra. O que acha disso?
Alexander mordeu o lbio inferior, denunciando tenso e embarao.
 No acha que isso  uma grande incoerncia de sua parte?
 Quem sabe?  ele comentou, como se para si. Inclinando-se na direo do pai, indagou:  O que faria, no meu lugar? Que tipo de atitude tomaria se, ao chegar para se declarar a uma mulher, encontrasse seu ex-namorado dormindo no sof da sala?
Patrick Rafferty ergueu as sobrancelhas.
 Foi isso que aconteceu?
 Exato.  E Alexander narrou o que ocorrera no dia em que regressara de Paris, cheio de amor e esperanas.  Como voc agiria, papai, diante dessa circunstncia?
Pensativo, o velho senhor levou alguns momentos para responder. E o fez com outra pergunta:
 Houve algum agravante? Quero dizer, alguma outra coincidncia desse tipo?
Alexander contou-lhe, ento sobre o telefonema de Justin, na tarde em que ele e Josephine regressaram do Jardim Botnico.
 No gosto da intimidade com que ele a trata. Chama-a de doura, querida...
 A questo no  como Justin trata Josephine, e sim vice-versa. Voc j a viu referindo-se a ele com apelidos carinhosos?
 No  Alexander admitiu.
 Ento, qual  o problema?
 O problema  que Justin Wood j a magoou, uma vez. Alis, Josephine estava justamente chorando por ele, na noite em que acabamos confundindo as coisas e dormindo juntos.
 E voc chegou a passar outras noites, com ela?
 No... nunca mais.
Patrick levantou-se da cadeira de balano e comeou a caminhar de um lado a outro da sala.
 Sabe de uma coisa, filho?  disse, parando em frente a Alexander.  Para mim, est tudo muito claro.
 Pois, para mim, est tudo muito confuso.
 Ento, oua com ateno... Mas no me interrompa, mesmo que tenha vontade.
 Fale, papai.
 A questo  seu cime doentio de Justin Wood. Afinal, Josephine s se entregou a voc justamente quando estava sofrendo por ele.
 Aquilo foi um deslize... Ou sei l que nome dar a algo que simplesmente aconteceu, de maneira espontnea. Algo que, para ser franco, no me desagradou. Ao contrrio... mexeu comigo, aqui dentro.  Alexander tocou o peito.  E com uma intensidade surpreendente, sabe?
Patrick Rafferty sorriu:
 Para quem no ia me interromper, voc falou um bocado...
 Desculpe, papai. Continue, por favor.
 Pois ... Justin representa, para voc, tudo o que no deve acontecer a Josephine.
 Ele no a merece.
 E ela no o quer.
 Mas...
 Oh, procure todos os argumentos do mundo, para conden-la... E voc os encontrar. Apenas, esqueceu-se de fazer uma nica pergunta.
 Qual?
 Por que Josephine mentiria para voc? Por que diria que no tem nada com Justin, se isso no fosse verdade? Que interesse teria ela em engan-lo?
 No sei.
 Nenhum, filho  Patrick Rafferty sentenciou.  Esta  a resposta. Josephine tem l seus defeitos, como todos ns. Mas a falsidade no se encontra entre eles.
 O senhor acha?  Alexander indagou, com o cenho franzido.
 Aposto minha vida nisso.
 Mas o que fao com minha dvida, papai? Como vencer a desconfiana que Josephine me inspirou, a partir daquele terrvel mal-entendido?
 Vena o medo, filho. Esta  a chave.
 Medo?
 Sim. A mente s vezes nos prega peas terrveis, sabe?
Alexander sentia-se cada vez mais confuso:
 Do que voc est falando, papai?
Patrick Rafferty sorriu:
 Em meus sessenta anos de vida, aprendi algumas coisas.
 Voc  um homem sbio, como poucos que conheci.
 Ento, acredite no que vou lhe dizer... A desconfiana que voc sente com relao a Josephine tem duas razes psicolgicas: a primeira, mais evidente,  o cime por Justin Wood. A segunda, pode ser resumida numa s palavra: medo.
 Explique-se melhor, por favor  Alexander pediu, ferido em seu orgulho.  Por que eu teria medo de...
 No de Josephine  o velho senhor interrompeu-o, mas da intensidade de seus sentimentos por ela. Tente distanciar-se da situao, para v-la com mais discernimento, filho... Um homem tem relaes com sua melhor amiga. De sbito, ela lhe conta que est grvida. Esse homem, a princpio, pensa em ampar-la e no hesita em propor-lhe casamento. Ela recusa, causando-lhe uma profunda admirao. A vida continua e, aos poucos, o homem descobre-se sentindo algo mais por essa mulher, alm de simples amizade. Fica espantado, tenta negar a fora desse sentimento, mas  impossvel. Afinal, aceita que est apaixonado e resolve declarar seu amor. Mas, por uma triste armadilha do destino, encontra o ex-namorado dela, dormindo no sof da sala. Ento, sua mente prega-lhe uma pea.
  isso que me interessa, papai. Que tipo de pea minha mente me pregaria, nesse caso?
 O medo...  Patrick Rafferty fitava-o no fundo dos olhos.  O medo que esse homem sentia, a princpio, encontra a desculpa perfeita para faz-lo afastar-se da mulher: a infidelidade, a falta de confiana. Pronto! Coberto de razes, o homem se vai... Jogando por terra sua chance de ser feliz.
 Mas a que medo voc est se referindo, papai?
 Ora, ao que voc sempre teve, filho: medo de se casar, de entregar-se ao amor de uma mulher, de pagar o preo, todos os dias, pela felicidade de ter uma companheira e uma famlia...
 Eu pensei em tudo isso, quando me flagrei apaixonado por Josephine  ele se defendeu.
 Mas seu inconsciente estava trabalhando, para demov-lo da idia..Voc, desde criana, desconfiava do carinho das pessoas.
 Nunca duvidei de voc, ou de mame. Tambm, jamais conheci um lar estvel como o nosso.
 E incrvel, no? Algumas pessoas adquirem traumas, por viverem num lar conturbado. Voc, entretanto, nasceu e foi criado numa casa cheia de harmonia.
 S que no conseguia encontrar, no mundo exterior, uma harmonia como a nossa. Nem mesmo na casa dos Smith.
 Eu me lembro que, no princpio do casamento, os pais de Josephine discutiam com frequncia. Depois, foram entrando num entendimento.
 Mas nunca tiveram a compreenso e a harmonia que existia em nossa casa, papai  Alexander afirmou, com veemncia.  Acho que  por isso que jamais desejei me casar... Por medo de no conseguir construir um lar to perfeito como o que voc e mame fizeram.
 No se esquea de se incluir nesta lista.  Patrick Rafferty sorriu para o filho.  Se no fosse por voc, ns jamais teramos conseguido tanta felicidade.
Alexander assentiu com um gesto de cabea. Estava to ou mais atnito do que na manh em que acordara ao lado de Josephine, na cama de seu quarto.
 Papai...  incrvel! Voc acaba de abrir minha mente. Claro que eu estava, no fundo, buscando uma desculpa para fugir ao amor que eu sentia por Josephine.
 E ela, ou melhor, as armadilhas do destino deram-lhe o argumento perfeito: Justin Wood. Desconfiando de Josephine, voc no teria por que continuar ao lado dela. E, assim, poderia fugir do amor que sentia.
 Fantstico!  Alexander exclamou, com voz abafada.  Era exatamente isso que estava acontecendo comigo.  Ele fez uma pausa.  Mas, quanto a ficar ao lado de Josephine... Bem, eu estava disposto a apoi-la, independente de todos esses mal-entendidos. S que ela no quis, papai.
 O que  perfeitamente compreensvel. Afinal, voc feriu seu amor-prprio e...
O telefone tocou e ambos precipitaram-se para atender.
 Deixe isso comigo, filho  disse Patrick Rafferty.
Mas Alexander foi mais rpido.
 Al... Jessie? Como esto Josephine e o beb? Bem? Graas a Deus! Como? Josephine no est no quarto? Entendo... Est tomando banho... O que houve com ela, Jessie? Foi apenas um susto, ento? Claro... E agora, voc e Bill viro para c? Ora, venham sim. Escute, vamos fazer o seguinte: vocs me esperaro a, no saguo do hospital. Irei busc-los em um minuto, certo? Est combinado. At j, Jessie.
Ante o olhar ansioso do pai, Alexander explicou:
 Josephine ter alta, no final do dia. Os mdicos ainda querem observ-la por algumas horas, mas ela est fora de perigo.
 E o beb?
 Tambm.
 Graas a Deus  Patrick Rafferty suspirou, aliviado.  Preciso contar a sua me.
 Jessie est ligando para ela, neste momento.
 timo.
 Com licena, papai.
Alexander saiu em direo ao quarto e retornou logo depois, vestindo cala preta de veludo, suter e um casaco de l.
 Aonde voc vai?  Patrick Rafferty perguntou.
 Buscar tio Bill e Jessie. Vou traz-los para c.
 Ento, ficarei aqui, esperando. E, se voc me der licena, prepararei algo para comermos.
 Fique  vontade, papai. A casa  toda sua. At logo.  Pegando as chaves do carro, que sempre deixava  vista, sobre a lareira, Alexander saiu.
To logo se viu sozinho, Patrick Rafferty correu at o telefone e ligou para o hospital:
 Al, por favor, eu gostaria de falar no quarto 1501, da Maternidade.
 Um momento, senhor  disse uma voz gentil e impessoal.
Cerca de trs minutos depois, Patrick Rafferty reconheceu a voz de Jessie.
 Ol, querida, aqui  o tio Patrick.
 Oi. Se voc quer falar com Josephine, no vai dar. Ela est tomando banho. E nem quis minha ajuda.
 Isso significa que ela est bem.
 Est tima. At j brigou comigo, s porque liguei o rdio um pouquinho mais alto.
 Posso imaginar  Patrick Rafferty riu, pois sabia muito bem o que significava um pouquinho mais alto, na linguagem de Jessie.  Agora escute, querida...
 Diga, tio Patrick.
 Ser que voc me faria um favor?
 Claro. Do que se trata?
 Pegue seu pai, tome um txi e venha para a casa de Alexander, imediatamente. Anote o endereo...
 Mas Alexander est justamente vindo nos apanhar!
 Faa o que estou dizendo, meu bem. Depois eu lhe explicarei o motivo, certo?
Mas Jessie relutava.
 No sei se papai concordar...
Compreendendo que Jessie no o ajudaria, a menos que entendesse o que estava se passando, Patrick Rafferty resolveu abrir o jogo:
 Voc, como eu, torce pela felicidade de Josephine e Alexander, no ?
 Claro, tio.
 Ento, oua: eu e Alexander conversamos longamente...
 E aquele cabea-dura escutou seus conselhos?
 Ao que tudo indica, sim. Agora, ele est indo para a. E se no encontrar voc e Bill no saguo, o que far?
 Subir para o quarto,  lgico.
 E encontrar Josephine.
 Mas no sei se ela quer v-lo. Voc sabe que minha adorvel maninha  to teimosa quanto seu filho.
 Vamos deixar isso por conta do Cupido, est bem? O importante  fazermos a nossa parte.
 Entendi, tio Patrick!  Jessie exclamou, radiante.  Puxa, voc sabe como preparar uma boa armadilha!  Baixando a voz, acrescentou:  E melhor sairmos antes de Josephine terminar o banho, no?
 Exato. Despeam-se rapidamente dela e peguem um txi... Mas no demorem sequer mais um minuto, ou tudo estar perdido.
  um trabalho para a Super Jessiel  a garota exclamou, entusiasmada.
 Certo, Super Jessie... Mas no perca tempo.
 Deixe comigo, tio Patrick. Estaremos a num piscar de olhos.

EPLOGO

Ao sair do banho, Josephine enxugou-se com uma toalha felpuda. E em seguida comeou a se vestir, com cuidado, lentamente.
Estava entrando no stimo ms de gravidez e nunca se sentira to... grande!
Mas, mirando-se com ateno no espelho do quarto do hospital, at que no estava to abatida quanto imaginava.
Passara mal, na noite anterior. Tivera vertigens e uma queda de presso que preocupara os mdicos. . Agora, sentia-se bem. E esperava no pregar outro susto no pessoal da maternidade, na famlia... e nela prpria.
"Pobre papai", Josephine pensou, comovida. "Ele parecia to ou mais doente do que eu. Jessie, com aqueles modos espalhafatosos, mal conseguia esconder o nervosismo. E tio Patrick, to arrasado..."
Josephine sabia que o velho senhor tinha ido visitar o filho. Era natural que o fizesse, j que estava em Londres.
Confidencialmente, ela lhe pedira para no dizer nada a Alexander, sobre o mal-estar que sofrera. Em primeiro lugar, porque no queria perturb-lo. Em segundo, porque sabia que Alexander se precipitaria para o hospital, para visit-la. E ela no estava em condies de receb-lo.
Nos ltimos meses, sofrera muito por aquele homem. No conseguira, naturalmente, sufocar o amor que lhe devotava. Porm, ao menos dera seguimento a sua vida, sem esperanas, era verdade... Mas vida!
Conseguira bons trabalhos, como free-lance, e at aumentara seus rendimentos. Com o fundo de garantia recebido da empresa onde trabalhara por dois anos, comprara todo o enxoval bsico do beb, que em breve nasceria.
Ao contrrio de muitas mulheres, Josephine em nenhum momento sentira-se ansiosa para saber o sexo da criana. Rezava apenas para que seu beb nascesse saudvel.
Entretanto, na noite anterior, fizera um exame de ultra-sonografia. E agora sabia que a criana seria uma menina.
Teria de contar a notcia a Alexander, nos prximos dias, ela pensou. E, para tanto, usaria um estratagema que descobrira h semanas: ligar durante o horrio comercial, quando Alexander quase nunca estava em casa. Assim, ela deixava-lhe o recado na secretria eletrnica, poupando-se de lhe falar diretamente. Pois o simples fato de ouvir a voz daquele homem j era suficiente para fazer seu corao disparar. Os sintomas seguintes eram ansiedade, falta de sono e de apetite... Enfim, tudo o que ela no podia sentir, sobretudo porque estava entrando no stimo ms de gravidez.
Depois de friccionar os cabelos ruivos e lisos com uma toalha de rosto, Josephine penteou-os, deixando-os soltos. Estava usando uma camisola cor de creme, de flanela, com bordados em ponto cruz nos punhos e ao redor da gola.
Josephine a havia reservado para quando fosse ter o beb, no incio do inverno. Mas, na correria da noite anterior, no tivera muito tempo de escolher. Toda sua energia s dera para chamar um txi, arrumar uma pequena valise e ir para o hospital. De l, pedira a uma enfermeira que ligasse para sua famlia, em East Anglia.
Ao chegar, fora medicada imediatamente. Quando acordara, vira o pai, a irm e Patrick Rafferty ao redor da cama. E ento sentira-se inundada por uma onda de alegria. Ela no estava sozinha, no mundo. Tinha aquelas pessoas queridas, em quem confiava plenamente.
 Maggie s no veio porque teve medo de nos dar trabalho  dissera Patrick Rafferty, tomando-lhe a mo.
 Do jeito que ela  nervosa, acabaria na U.T.I.  Jessie comentara, com sua descontrao habitual.
 Menina, no fale bobagens!  Bill a repreendera, naquele tom de severidade e carinho que sempre usava com as filhas.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Josephine, ao lembrar-se da forma estabanada com que Jessie e Bill haviam se despedido dela, minutos atrs.
 Estamos indo comer alguma coisa, maninha!  a menina anunciara, batendo  porta do banheiro.
 Voltaremos para apanh-la, quando tiver alta  dissera Bill.
Deviam estar famintos, Josephine pensou, ajeitando as almofadas da cama, para recostar-se. Cansara-se de ficar deitada. No via a hora de ir para casa, onde tinha tanto a fazer: uma traduo por terminar, e um artigo para ser revisado.
Uma batida leve, na porta, a fez cobrir-se at a cintura. Devia ser o mdico, ela imaginou.
A batida se repetiu... coisa no habitual, pois nem mdicos, nem enfermeiras, costumavam esperar. Batiam, apenas para avisar que entrariam em seguida.
Seria Jessie?, Josephine perguntou-se. Ou Bill, que talvez houvesse esquecido alguma coisa...
Antes que ela conclusse o pensamento, a batida soou novamente.
 Entre!
A porta se abriu, dando passagem a...
 Alexander!  Josephine exclamou, surpresa.
 O que est fazendo...
No houve tempo de terminar a frase, pois Alexander abraou-a com fora, beijando-lhe os cabelos, o rosto, os lbios... Enquanto acariciava-lhe o ventre, como se tocasse um preciosssimo tesouro.
 Perdoe minha estupidez, meu machismo exacerbado, meu orgulho. Mas tudo no passava de medo, sabe? Medo de am-la, de ser feliz.
Josephine perguntou-se se no estaria sonhando. Mas de sbito a criana movimentou-se, como a confirmar que no, que tudo aquilo estava acontecendo de verdade.
 Veja s...  ela disse, baixinho, em contraponto com a voz emocionada de Alexander, que continuava declarando seu amor.  O beb est se mexendo!
 Como?
Pegando a mo de Alexander, ela pressionou-a levemente, sobre o ventre, para que ele percebesse os movimentos do beb.
Maravilhado, com os olhos azuis radiantes de emoo, Alexander exclamou:
 Ele est querendo nos dizer algo!
 Ela  Josephine o corrigiu, docemente.
 Ela?  Alexander repetiu, sorrindo.
 Sim.
 Desde quando voc sabe?
 Desde ontem, quando fiz uma ultra-sonografia.  Josephine acariciava-lhe a mo, que continuava repousada em seu ventre.  Como foi que voc veio parar aqui?
  uma longa histria.
 E tem algo a ver com o sumio de meu pai e minha irm?
 Tudo a ver.
 Aqueles dois conspiraram.
 Meu pai tambm.
O silncio caiu entre ambos, que se fitavam com intensidade. Alexander foi o primeiro a falar:
 Meu pai me fez compreender que eu estava cometendo um grande erro.  Em poucas palavras, narrou a conversa com Patrick Rafferty e, no final, acrescentou:  Felizmente, abri os olhos a tempo. No posso recuperar o tempo perdido, Josephine. Mas... ser que voc me daria uma chance?
 Chance... de qu?
 De provar o quanto te amo.
 E como voc faria isso?  ela indagou, sentindo-se invadida por uma onda de alegria, que em seu bojo trazia promessas de pura felicidade.
 Bem, em primeiro lugar, eu me desculparia por ter sido to...
 Essa parte voc j fez  ela afirmou, docemente.
 Em segundo lugar, eu lhe pediria para casar-se comigo... E ento seria o mais feliz dos homens.  Com um olhar ansioso, Alexander repetiu:  D-me uma chance, por favor.
 Comigo, Alexander Rafferty, voc sempre teve e ter todas as chances do mundo. Agora diga aquilo de novo.
 Aquilo... o qu?
 Sobre me amar...
 Eu te amo, Josephine, como nunca amei ningum. Acredito que, juntos, construiremos um mundo pleno das mais belas realizaes. E, quando vierem os momentos difceis, teremos foras para suport-los. Pois estaremos apoiados nos valores em que tanto acreditamos: amor, respeito, tica, honestidade, sinceridade, afeto...
Incapaz de conter tanta felicidade, Josephine abraou-o com fora. No instante seguinte, um beijo selava aquele momento, nico, em que dois seres decidem assumir o amor e juntar, para sempre, as linhas da vida.
Dois meses depois, nascia Isabelle Smith Rafferty, uma saudvel menina de trs quilos e setecentos gramas, que tinha os olhos azuis do pai e os cabelos ruivos da me.
Os avs e a tia disputavam as atenes da recm-chegada com gracinhas, risos, palmas e aquela infinidade de tolices que s mesmo uma famlia apaixonada seria capaz de fazer...
J Josephine e Alexander no sabiam ao certo o que dizer ou pensar. S conseguiam olhar para aquele ser minsculo, prova incontestvel do milagre da vida, e pensar que valia pena lutar por um mundo melhor. Pois aquela criana, juntamente com milhares de outras, herdaria a Terra, algum dia. Portanto, era preciso preparar, desde j, o planeta. E se cada ser humano fizesse sua parte, a Terra e o Universo inteiro responderiam  altura.

Fim


Dicas
Alimentao Natural

As pessoas que consomem alimentos naturais dizem que o feijo  rico em protenas, mas temo que se tratem de protenas incompletas, no to nutritivas como as da carne.  verdade?
O valor biolgico da protena depende do nmero de aminocidos diferentes que ela contm. Uma protena que contenha oito tipos de aminocidos essenciais para o homem  considerada completa. As protenas animais, inclusive as dos laticnios, certamente contm maior variedade de aminocidos que as protenas vegetais.
No entanto, quando se combinam protenas incompletas, uma pode suprir os aminocidos inexistentes na outra: se o feijo  ingerido com cereais, por exemplo, eles se combinam para produzir uma mistura de aminocidos to nutritiva quanto a da carne. Outra combinao completa de protena inclui feijo com laticnios, feijo com nozes, cereais com laticnios. Se voc  vegetariana, ou simplesmente deseja comer carne e evitar as gorduras altamente saturadas, que contribuem para a formao dos depsitos gordurosos no interior das artrias, procure estabelecer uma dieta equilibrada. O importante  unir uma variedade grande de alimentos, de maneira que eles se complementem, corrigindo as eventuais deficincias.

No sei por que todo esse estardalhao em torno do po branco. Ele no tem uma certa quantidade de nutrientes, obrigatoriamente?
Sim. Mas alguns dos nutrientes so removidos da farinha pelo processo de refinamento, e as vitaminas (em especial as do complexo B) deveriam ser adicionadas depois. O po branco no  uma fonte de protenas e de vitaminas to boa como o po integral, que contm germe de trigo. Alm disso, as fibras vegetais contidas no po integral so benficas  sade.


KIM LAWRENCE mora em uma fazenda em Anglesey. Todos os dias corre quatro quilmetros e acha que esse  o melhor modo de relaxar e buscar inspirao para seus livros. Tambm consegue energia para dedicar-se ao marido, aos dois filhos e aos vrios animais que adotaram a famlia. Consumidora fantica de fico, ela tambm est muito entusiasmada com seus livros e adora um final feliz.
